O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul voltou ao centro do debate político internacional após declarações do chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, que indicam uma estratégia clara para driblar resistências internas no bloco europeu. Segundo Merz, o tratado deverá entrar em vigor de forma provisória assim que for ratificado por ao menos um país do Mercosul, independentemente da análise do Tribunal de Justiça da União Europeia.
A fala do chanceler alemão sinaliza uma mudança relevante no jogo político. Ao afirmar que as tentativas de barrar o acordo no Parlamento Europeu não devem prosperar, Merz reforça a posição de países que enxergam o tratado como estratégico para a competitividade europeia, especialmente em um cenário de desaceleração econômica e reconfiguração das cadeias globais de comércio.
Do ponto de vista jurídico, a manobra é possível. A Comissão Europeia não é obrigada a aguardar uma decisão do Parlamento ou do Tribunal para aplicar provisoriamente o acordo, desde que ele já tenha sido assinado — o que ocorreu — e que pelo menos um país do Mercosul conclua sua ratificação interna. Isso abre caminho para uma implementação parcial e progressiva, restrita inicialmente aos países que cumprirem esse requisito.
Nesse contexto, o Paraguai surge como peça-chave. O país já sinalizou que pretende concluir o processo de ratificação até março, o que o colocaria na posição de primeiro signatário apto a destravar a aplicação provisória do acordo. Brasil, Argentina e Uruguai também iniciam seus trâmites internos em fevereiro e trabalham com a expectativa de concluir o processo nos próximos meses.
A decisão do Parlamento Europeu, tomada em janeiro, de acionar o Tribunal de Justiça da UE adicionou um novo elemento de incerteza. Embora o processo judicial paralise formalmente a aplicação plena do acordo, ele não impede, por si só, a adoção provisória. O problema é o tempo: a Justiça europeia pode levar entre 18 e 24 meses para se manifestar, um intervalo considerado excessivo por setores econômicos que pressionam por previsibilidade e abertura de mercados.
Para a Alemanha, o acordo com o Mercosul tem peso estratégico. Ele amplia o acesso a mercados consumidores relevantes, garante fornecimento de matérias-primas e fortalece a presença europeia na América do Sul em um momento de disputa geopolítica com China e Estados Unidos. Por isso, Berlim tem se posicionado como uma das principais defensoras da entrada em vigor, mesmo que parcial.
Na prática, se o Paraguai — ou qualquer outro membro do Mercosul — ratificar o tratado, o acordo poderá começar a valer entre esse país e a União Europeia, criando um efeito dominó político e econômico. A pressão sobre os demais governos tende a aumentar, tanto na América do Sul quanto na Europa, à medida que os primeiros benefícios comerciais comecem a aparecer.
O movimento evidencia uma tentativa de contornar o impasse político europeu sem romper as regras institucionais. Ainda que a controvérsia jurídica siga em curso, a aposta alemã é clara: avançar agora, mesmo de forma provisória, para evitar que o acordo fique indefinidamente travado por disputas internas e decisões judiciais demoradas








































































