A reformulação da política fiscal brasileira, com previsão de aumento da tributação sobre grandes rendas a partir de 2026, vem sendo interpretada fora do país como uma oportunidade estratégica. No Paraguai, autoridades, especialistas tributários e o setor produtivo observam com atenção os efeitos do chamado “choque tributário” brasileiro, avaliando que a medida pode acelerar a entrada de capitais estrangeiros, especialmente de origem brasileira, e fortalecer ainda mais o regime de maquila, que já movimenta bilhões de dólares no comércio regional.
Nos últimos anos, empresários e investidores brasileiros têm convivido com sucessivas elevações de impostos, cenário que, segundo analistas, tende a se intensificar com a nova legislação. A partir de 2026, pessoas físicas e jurídicas com rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil passarão a ser alcançadas por regras mais rígidas de tributação, alterando de forma significativa o ambiente de negócios no Brasil e estimulando a busca por alternativas fiscais na região.
Paraguai desponta como destino preferencial de investidores brasileiros
A imprensa paraguaia tem dado amplo destaque ao tema. O jornal El Nacional, um dos mais influentes do país, ressaltou as oportunidades que se abrem para a economia local diante do aumento da carga tributária brasileira. Para o veículo, o Paraguai está em posição privilegiada para captar investimentos produtivos, sedes empresariais e patrimônios financeiros que buscam menor pressão fiscal e maior previsibilidade regulatória.
Especialistas tributários paraguaios avaliam que a nova lei brasileira cria um diferencial competitivo ainda mais favorável ao país. Com impostos mais baixos, estabilidade jurídica e incentivos à produção industrial, o Paraguai se consolida como alternativa natural para empresários que desejam proteger e rentabilizar seus ativos.
Os números reforçam essa tendência. Em 2025, um total de 22 mil brasileiros iniciou processos formais de residência no Paraguai, volume recorde e fortemente associado a motivações econômicas. Parte significativa desse contingente é formada por empresários, investidores e profissionais liberais de alta renda, interessados em estabelecer operações ou transferir domicílio fiscal.
Interesse internacional e atenção da imprensa global
O movimento também chamou a atenção da imprensa internacional. O The Wall Street Journal destacou recentemente o crescente interesse de empresas brasileiras em instalar unidades produtivas ou transferir suas sedes para o Paraguai. Segundo a publicação, a diferença de carga tributária e os custos operacionais mais baixos explicam a aceleração desse fluxo, que tende a se intensificar nos próximos anos.
Esse cenário reforça a percepção de que a política fiscal brasileira, ao elevar impostos sobre altas rendas, pode gerar efeitos indiretos relevantes na economia regional, redistribuindo investimentos dentro do Mercosul.
Governo paraguaio aposta em estabilidade e segurança jurídica
Diante do aumento da demanda por investimentos, o governo do Paraguai tem adotado um discurso claro de previsibilidade. O subsecretário de Estado de Tributação, Óscar Orué, afirmou publicamente que não há qualquer previsão de aumento de impostos no país até 2028. A sinalização busca transmitir segurança aos investidores e reforçar o compromisso com um ambiente de negócios estável.
Segundo o presidente da Câmara de Comércio Paraguai-Brasil, Fabio Fustagno, as condições estão dadas para a chegada de novas empresas brasileiras. Além da baixa carga tributária, o país oferece mão de obra disponível, custos operacionais competitivos e localização estratégica, especialmente nas regiões próximas à fronteira com o Brasil.
Entenda a nova estrutura fiscal brasileira
A legislação brasileira que entra em vigor em 2026 prevê aumento da tributação sobre rendas elevadas, atingindo aproximadamente 140 mil contribuintes classificados como de alta renda. A cobrança será progressiva, com alíquota máxima de até 10%, aplicada apenas sobre a parcela do rendimento que ultrapassar os limites definidos em lei.
Contribuintes que já recolhem percentuais iguais ou superiores a esse patamar não serão impactados, evitando a chamada dupla tributação. O governo brasileiro afirma que a medida não trará impacto negativo às contas públicas e não exigirá cortes de gastos ou redução de serviços essenciais.
Determinados rendimentos ficarão fora do alcance da nova tributação, como ganhos de capital, heranças, doações, rendimentos recebidos acumuladamente, aplicações isentas, poupança, indenizações e aposentadorias por moléstia grave. A lei também estabelece tetos para a carga tributária total, com mecanismos de compensação e restituição caso os limites sejam ultrapassados na declaração anual.
O aumento de impostos sobre altas rendas tem como contrapartida a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda Pessoa Física para quem ganha até R$ 5 mil. Com isso, cerca de 15 milhões de brasileiros deixarão de pagar IR, sendo 10 milhões totalmente isentos e outros 5 milhões beneficiados com redução do imposto.
Regime de maquila impulsiona comércio e industrialização
Enquanto o Brasil ajusta sua política fiscal, o Paraguai colhe resultados expressivos com o regime de maquila, modelo que oferece tributação reduzida para empresas estrangeiras que produzem no país com foco na exportação. Em 2025, as exportações das maquiladoras ultrapassaram US$ 1 bilhão até o final de novembro, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio.
O Brasil é o principal destino dessa produção, absorvendo 64% das exportações realizadas sob esse regime. O crescimento anual foi de 15%, equivalente a US$ 117 milhões adicionais em relação a 2024, evidenciando a força da integração industrial entre os dois países.
O modelo mantém superávit comercial expressivo: as exportações superam as importações em 83%. Entre os principais produtos exportados estão autopeças (34%), vestuário e têxteis (17%), produtos de alumínio (13%) e alimentos (12%), demonstrando uma pauta diversificada e com valor agregado.
Integração regional e geração de empregos
Atualmente, 81% das exportações paraguaias são destinadas ao Mercosul, com o Brasil consolidado como principal parceiro comercial. Essa interdependência fortalece cadeias produtivas regionais e amplia ganhos logísticos e de escala.
O setor de maquila é também um importante gerador de empregos. Mais de 35 mil postos de trabalho diretos foram criados, com crescimento anual de 23%. A maior concentração está nos departamentos do Alto Paraná, Central e na região de Assunção, áreas estratégicas pela proximidade com o sul do Brasil e pelos corredores logísticos.
Estratégia clara: captar capital brasileiro
Para analistas locais, a estratégia do Paraguai é objetiva: aproveitar o movimento de saída de capitais brasileiros provocado pelo aumento de impostos. Ao manter estabilidade fiscal, regras claras e incentivos à produção, o país busca se posicionar como destino preferencial de investimentos na América do Sul.
Na avaliação de autoridades e empresários paraguaios, quanto maior a pressão tributária no Brasil, maiores tendem a ser as oportunidades para o Paraguai ampliar sua base industrial, gerar empregos e fortalecer sua economia. O resultado é uma competição fiscal regional que pode redesenhar, nos próximos anos, o mapa dos investimentos no Mercosul.







































































