Leila Bijos
A análise que se propõe sobre Cuba nos remete a uma trajetória na ilha, como acadêmica, participando do 13º Congresso Internacional de Educação Superior, em Cuba, com o tema “Universidade e inovação por um desenvolvimento sustentável e inclusivo”. O alto nível das discussões sobre a educação contemporânea nos fez pensar na possibilidade de agregar valores em nossas aulas, e nas discussões com os discentes.
Os avanços ocorridos na educação, a partir da Revolução Cubana no dia 1 de janeiro de 1959, Movimento 26 de Julho, que culminou com a destituição do ditador Fulgencio Batista, liderado por Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara, nos mostra transformações governamentais históricas no país. O Movimento 26 de Julho (M-26-7) estabeleceu um governo nacionalista que se aproximou da União Soviética, proclamando o caráter socialista da revolução em 1961 e estatizando a economia, o que gerou forte tensão com os EUA e impacto duradouro na Guerra Fria.
No que tange às relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, restabelecidas em 1986, caracterizam-se por períodos de forte aproximação ideológica e cooperação, alternados com distanciamentos, focando atualmente em áreas como saúde, biotecnologia, segurança alimentar e intercâmbio técnico. O Brasil busca aprofundar laços no contexto de parcerias com o Sul Global.
Oficialmente reconhecida como República de Cuba, o país está localizado na América Central e possui um território com característica insular, ou seja, um país composto de ilhas. Havana é a capital de Cuba e a maior cidade da nação, sendo considerada uma das localidades mais antigas da região. Cuba se destaca como um país rico por seu patrimônio histórico de casarões do século XV, ruas pavimentadas de paralepípedo são um charme histórico, com calçadas calcetadas e bem cuidadas, atraindo turistas. O Passeio del Prado são espaços ajardinados de socialização. Agrega-se a isso, a extraordinária riqueza musical, com gêneros como a salsa, mambo e son cubano, que se perpetuam há séculos, ecoando pelas cidades e pelos vilarejos do país.
Cuba nos deixou fascinados, e foi a realização de um sonho de meu pai Sílvio, que me acompanhou na viagem, e sempre se interessou pela história política e econômica do país. A música e a dança fazem parte da vida dos cubanos, com seus ritmos vibrantes, em especial o Danzón, uma dança que surgiu no século XIX, e tornou-se, desde então, parte fundamental da cultura musical e dançante não apenas de Cuba, mas de todo o Caribe.
Muito nos surpreendeu a culinária típica cubana, que é uma fusão de influências espanholas, africanas e caribenhas, caracterizada pelo uso de arroz, feijão, raízes (mandioca) e carnes suínas. Pratos clássicos incluem Ropa Vieja (carne desfiada), Moros y Cristianos (arroz e feijão juntos) e Lechón Asado, leitão assado. É uma cozinha saborosa, com temperos marcantes, mas geralmente não picante.
Outro aspecto relevante é a história do charuto cubano, que remonta ao século XV, quando os colonizadores espanhóis descobriram e passaram a apreciar o ritual dos povos nativos de fumar folhas de tabaco. De lá para cá, a indústria do charuto passou por diversas transformações e modernizações, mas a tradição, que foi implementada séculos atrás, se manteve. O charuto cubano se consolidou como um ícone mundial, movimentando a economia do país e tornando-se parte da “alma da ilha”. Assim como o charuto, o rum cubano também desempenha um importante papel na cultura e na história de Cuba. Com um território tropical propício à produção de açúcar, a fabricação de rum surgiu como uma extensão natural dessa riqueza agrícola. Hoje, a bebida à base de rum, hortelã, limão e açúcar é considerada uma das melhores do mundo, refletindo a excelência e o legado cubano. Depois de leituras do livro “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, que encontrou inspiração para muitas de suas obras na ilha de Cuba, tornou-se importante visitar o bar La Bodeguita del Medio, reminiscências do escritor, que apreciava degustar seu “mojito”. Era lá que o escritor encontrava amigos, saboreava a culinária cubana e, claro, desfrutava de seus mojitos. A fama do bar se espalhou tanto que até hoje ele é conhecido como o berço do mojito Hemingway.
Fizemos uma viagem turística a Varadero, uma linda praia no litoral, e conhecemos uma autêntica residência cubana, além de visitar e conhecer o sistema de saúde de Cuba, conversar com os médicos e enfermeiros, pois é reconhecido como um dos melhores do globo. O país se destacou especialmente durante a crise sanitária de 2020, imunizando mais de 90% da população e controlando a disseminação do vírus com uma estratégia própria de vacinação. Cuba produz 70% dos equipamentos, insumos e itens fármacos utilizados no país, além disso, todo o sistema de saúde é regulamentado, financiado e gerenciado pelo Estado que se divide em três níveis administrativos — nacional, provincial e municipal. Cuba possui o maior número de médicos por habitante em todo o mundo. São 9,2 por 100 mil e no total há 500 mil trabalhadores da área da saúde para uma população de 11,26 milhões.
Crise energética de Cuba em 2026
A grave crise energética de Cuba em 2026 não se reduz a uma disfunção econômica interna. Na verdade, esta crise funciona como um nó estratégico dentro de uma arquitetura mais ampla de competição entre grandes potências por corredores energéticos, na qual os Estados Unidos, a Rússia e a China disputam o controle das artérias físicas e logísticas do comércio global e da projeção de poder, em artigo do Professor Habib Al Badawi, do Líbano (0/05/2026). A análise se fundamenta na teoria realista clássica, e à literatura sobre geoeconomia coercitiva, e demonstra como a instrumentalização das cadeias de suprimento de energia constitui uma forma de coerção estrutural que opera abaixo do limiar do engajamento militar declarado, ao mesmo tempo que produz consequências de importância estratégica comparável.
O dilema de Cuba simultaneamente alvo de pressão máxima, receptora de contra-ataques russos e chineses e uma frente declarada em uma campanha hemisférica mais ampla ilumina a lógica do que o Professor Habib Al Badawi denomina “guerra de corredores”: uma disputa contínua e multidimensional pelos pontos de estrangulamento e linhas de suprimento que definem cada vez mais a ordem internacional.
Cuba enfrenta em 2026 uma das maiores crises de sua história, marcada por apagões severos, escassez de combustível, alimentos e medicamentos, intensificada pelo endurecimento do embargo dos EUA e a perda de apoio venezuelano. O país vive sob tensão política, com o governo tentando manter o modelo socialista enquanto a população enfrenta a precarização da vida cotidiana.
Como marcos conclusivos, destaca que a soberania, em condições de dependência assimétrica, não é um fator determinante. “Uma condição binária, mas um espectro, e Cuba se encontra em uma das interseções mais reveladoras do sistema internacional.”
Perspectivas futuras propõem mudanças e melhorias em setores em que o próprio governo cubano reconhece haver deficiências, mas é preciso que a cooperação internacional ocorra entre os EUA e os países aliados.
REFERÊNCIAS
DOURADO, Flávia. A realidade de Cuba do ponto de vista dos cubanos
02/06/2015. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Disponível em:
https://www.iea.usp.br/noticias/a-realidade-de-cuba-do-ponto-de-vista-dos-cubanos.








































































