Yanran Xu é docente na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Renmin da China, onde atua como professora associada e diretora do programa de Governança Global e Assuntos Internacionais. Com especialização em governança global e nos laços entre China e América Latina, sua produção acadêmica investiga as novas configurações de poder, a evolução para energias limpas e a consolidação de alianças estratégicas pragmáticas no cenário internacional contemporâneo.
A nova fase dos investimentos chineses no Brasil: infraestrutura, logística e desenvolvimento regional
O Mundo Diplomático: A senhora argumenta que a presença econômica da China no Brasil está entrando em uma nova fase, caracterizada não apenas pelo aumento dos investimentos, mas também por uma participação mais profunda na gestão, na operação e no desenvolvimento de projetos estratégicos. Quais oportunidades essas transformações poderiam criar para as empresas brasileiras e como o setor privado brasileiro pode se posicionar melhor para se beneficiar dessa nova etapa da cooperação bilateral?
Yanran Xu: A indústria automotiva oferece o exemplo mais claro e instrutivo. A BYD não está apenas exportando, mas construindo uma fábrica de R$ 5,5 bilhões em Camaçari, na Bahia, que deve atingir a produção local total neste ano de 2026 e terá, eventualmente, uma capacidade de 300 mil unidades. Portanto, os setores com maior espaço imediato para expansão são peças automotivas, equipamentos de energia renovável, processamento do agronegócio e serviços digitais.
O Mundo Diplomático: Apesar do significativo potencial de cooperação em áreas como logística, energia e infraestrutura digital, muitos projetos continuam enfrentando obstáculos regulatórios, financeiros e institucionais. Na sua opinião, quais são os principais desafios para uma cooperação mais profunda entre a China e o Brasil em infraestrutura, e que medidas ambas as partes poderiam adotar para superá-los?
Yanran Xu: No Brasil, a complexidade regulatória, a demorada obtenção de licenças, em particular as ambientais, a incerteza jurídica, a volatilidade cambial e os altos custos de financiamento provavelmente serão os principais desafios. No que diz respeito à cooperação, as expectativas frequentemente divergem em relação aos modelos de financiamento, requisitos de conteúdo local e governança de projetos. A posição da China é muito clara e construtiva. Essas questões podem ser resolvidas por meio da construção paciente de instituições, estabelecendo regras estáveis e previsíveis, criando carteiras de projetos financiáveis de acordo com padrões internacionais e projetando estruturas de financiamento que compartilhem o risco em vez de concentrá-lo.
O Mundo Diplomático: Projetos de infraestrutura em grande escala, incluindo corredores bioceânicos, ferrovias e modernização portuária, têm sido frequentemente associados à crescente presença econômica da China na América do Sul. Como a diplomacia chinesa encara o papel desses projetos no desenvolvimento regional e quais princípios orientam a cooperação com os países anfitriões?
Yanran Xu: A diplomacia chinesa apresenta grandes projetos logísticos como facilitadores da integração regional e como meios para proporcionar aos produtores sul-americanos um acesso melhor e mais justo aos mercados globais, e não como ferramentas de influência. A China apresenta os projetos de infraestrutura como conectividade que reduz os custos logísticos para a agricultura e os minerais brasileiros, ao mesmo tempo em que integra o interior do continente, e afirma claramente que a viabilidade, o impacto ambiental e a consulta aos povos indígenas são questões a serem resolvidas pelos Estados anfitriões.
Veículos elétricos e industrialização verde: oportunidades para a transição energética
O Mundo Diplomático: O investimento chinês no setor de veículos elétricos do Brasil cresceu rapidamente nos últimos anos. Do ponto de vista da China, qual papel o Brasil deveria desempenhar nesse ecossistema industrial emergente: um mercado consumidor, um polo regional de manufatura ou uma plataforma de exportação integrada às cadeias de valor globais de tecnologia verde?
Yanran Xu: A China sustenta que o Brasil deve ser mais do que um mercado e deve se tornar um polo regional de manufatura e inovação integrado às cadeias de valor globais de tecnologia verde. O Brasil possui escala, um grande mercado interno, uma matriz energética limpa e proximidade com a demanda regional, enquanto a China possui capital, tecnologia de baterias e veículos elétricos, além de profundidade na cadeia de suprimentos. Portanto, passar da montagem de kits importados para a produção nacional de baterias, motores e componentes-chave permite que o Brasil capture valor, crie empregos qualificados e funcione como uma plataforma de exportação para a América Latina, em vez de simplesmente ser um destino para importações de produtos acabados.
O Mundo Diplomático: Uma vez que tanto a China quanto o Brasil buscam avançar em suas agendas de transição energética, que oportunidades a senhora vê para uma cooperação bilateral mais profunda em áreas como energia renovável, tecnologias verdes, pesquisa e desenvolvimento e inovação industrial?
Yanran Xu: A China se apresenta como um parceiro natural para a transição energética do Brasil, pois as duas economias são complementares em toda a cadeia de energia limpa. Portanto, há oportunidades claras e atraentes na fabricação e implantação de energia solar e eólica, na modernização da rede elétrica e na transmissão de ultra-alta tensão — a State Grid já é uma importante operadora no Brasil —, no armazenamento de energia, no hidrogênio verde e no transporte elétrico.
Infraestrutura digital e geopolítica
O Mundo Diplomático: A competição geopolítica tem influenciado cada vez mais os debates sobre infraestrutura digital em todo o mundo. Como a China vê o papel de parceiros como o Brasil no desenvolvimento da infraestrutura digital? Quais mecanismos diplomáticos podem ajudar a reduzir o impacto das disputas entre grandes potências em projetos como redes 5G, computação em nuvem e centros de dados?
Yanran Xu: Os instrumentos diplomáticos estão logicamente delineados: o respeito pelo direito de cada país de escolher seus próprios fornecedores de tecnologia, as estruturas de governança de dados e segurança cibernética negociadas bilateral e multilateralmente, inclusive no âmbito do BRICS e da ONU, e a oposição ativa à separação que empurraria os países em desenvolvimento para blocos tecnológicos exclusivos.
O BRICS e a Governança Global:
bilateralismo, autonomia e competições estratégicas
O Mundo Diplomático: A expansão do BRICS aumentou a relevância do grupo nas discussões sobre governança global e cooperação econômica internacional. Qual o papel que a China prevê para o Brasil nesta nova fase de desenvolvimento do BRICS?
Yanran Xu: A China considera o Brasil um co-arquiteto, e não um membro subalterno, de uma ordem internacional mais representativa, e a estatura do Brasil ficou amplamente demonstrada quando assumiu a presidência rotativa do BRICS em 2025 e sediou a 17ª cúpula no Rio de Janeiro para um bloco ampliado de onze membros, que agora consiste nos membros originais mais Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e um grupo de países parceiros. A caracterização clara e bem pensada da China sobre o papel do Brasil é um facilitador para a cooperação prática do Sul Global no âmbito do BRICS.
O Mundo Diplomático: Em um momento em que muitos países em desenvolvimento enfrentam pressões para se alinharem a blocos geopolíticos concorrentes, como a China busca aprofundar suas relações com os países latino-americanos, respeitando ao mesmo tempo a autonomia estratégica deles, assim como as suas escolhas políticas?
Yanran Xu: A China se posiciona no sentido de aprofundar as relações com a América Latina e se baseia na igualdade, no benefício mútuo e não na interferência. Mais importante ainda, a China define seu próprio comportamento como o oposto de um modelo de esfera de influência. Ela fornece infraestrutura, mercados e financiamento, mas deixa as escolhas políticas e de desenvolvimento inteiramente a cargo dos governos soberanos, contrastando isso com o que chama de “política de blocos” coercitiva praticada por outros.
O Mundo Diplomático: O retorno de Donald Trump à Casa Branca reacendeu os debates sobre tarifas, cadeias de abastecimento, política industrial e competição tecnológica. Como a China avalia as implicações desse ambiente internacional para suas relações com a América Latina e, em particular, com o Brasil?
Yanran Xu: Na visão chinesa, o país procura se apresentar como uma alternativa estável e previsível. Um grande mercado aberto, um investidor confiável e um defensor do sistema multilateral de comércio, oferecendo assim “certeza em um mundo incerto”. Consequentemente, a China vê este momento como uma oportunidade ideal para aprofundar os laços com o Brasil e a região, reforçando que não está pedindo aos parceiros que se alinhem contra ninguém, mas apenas que defendam o comércio aberto e seus próprios caminhos de desenvolvimento soberano.







































































