O Brasil e a Turquia avançam nas discussões para estabelecer uma parceria estratégica no setor de defesa, com potencial para transformar a relação entre os dois países em uma cooperação industrial de longo prazo. A proposta envolve produção local de equipamentos militares turcos no Brasil, transferência de tecnologia e a possibilidade de ampliar a presença da indústria brasileira no mercado turco.
Entre os principais projetos estão o blindado Tulpar, desenvolvido pela turca Otokar, e os drones da Baykar, além de negociações que podem abrir espaço para a produção do jato comercial E2 da Embraer em território turco.
Segundo informações divulgadas pela Sociedade Militar com base em dados atribuídos à DefesaNet, o modelo em discussão segue uma lógica de acordos de governo para governo, com participação direta das empresas envolvidas e estímulo à fabricação local.
Tulpar aparece como opção para modernização do Exército
Um dos principais elementos da proposta é o Tulpar, família de veículos blindados sobre lagartas produzida pela Otokar.
A plataforma pode ser configurada para diferentes missões. Entre as versões consideradas estão um carro de combate equipado com canhão de 120 milímetros e uma viatura de combate de infantaria armada com canhão automático de 30 milímetros.
A proposta de fabricação nacional acrescentaria um componente estratégico à eventual aquisição. Em vez de simplesmente importar os veículos prontos, o Brasil poderia participar da produção, manutenção e absorção de conhecimento tecnológico.
A versão equipada com canhão de 120 mm utiliza a torre Hitfact II, da italiana Leonardo, uma família de sistemas já relacionada ao programa do Centauro II utilizado pelo Exército Brasileiro. A possível comunalidade de equipamentos poderia facilitar treinamento, manutenção e logística.
Drones Bayraktar podem ser produzidos no Brasil
Outro eixo da negociação envolve os sistemas não tripulados desenvolvidos pela Baykar, uma das principais empresas turcas do setor.
A proposta prevê a criação de capacidade brasileira para fabricação e integração de drones Bayraktar, com possibilidade de utilização do país como plataforma para futuras exportações destinadas a outros mercados da América Latina.
A iniciativa acompanha a crescente importância dos drones no campo de batalha moderno. Sistemas não tripulados passaram a desempenhar funções de reconhecimento, vigilância, aquisição de alvos e ataque, alterando as exigências das forças armadas em diferentes regiões do mundo.
Para o Brasil, uma eventual produção local poderia ampliar a autonomia industrial em uma área considerada estratégica e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.
Embraer pode produzir jatos E2 na Turquia
A parceria também possui uma dimensão comercial que vai além do setor estritamente militar.
Como possível contrapartida, a Embraer poderá ampliar a cooperação industrial com empresas turcas e avaliar a produção do E2, sua família de jatos comerciais, em território turco.
Essa possibilidade está relacionada a um memorando de entendimento firmado em abril de 2025 entre a Embraer e a Turkish Aerospace Industries. O acordo prevê a avaliação de oportunidades de cooperação industrial envolvendo fabricação e montagem de estruturas, componentes, fuselagens, testes e pintura.
Caso avance, a iniciativa poderá criar uma estrutura industrial capaz de atender tanto ao mercado turco quanto a outros mercados próximos, fortalecendo a presença da fabricante brasileira na região.
Cooperação busca criar uma relação de mão dupla
O diferencial da proposta está justamente no caráter recíproco da cooperação.
De um lado, o Brasil busca incorporar tecnologias turcas em áreas como veículos blindados e sistemas aéreos não tripulados. De outro, a Turquia poderia ampliar sua participação na cadeia industrial da Embraer e receber investimentos relacionados à produção aeronáutica.
Esse modelo permitiria que os dois países compartilhassem capacidades industriais, treinamento e conhecimento tecnológico, em vez de estabelecer uma relação baseada apenas na compra e venda de equipamentos.
A cooperação entre as duas indústrias de defesa já vinha sendo ampliada nos últimos anos. Em 2025, autoridades brasileiras e turcas intensificaram contatos relacionados ao Tulpar e a outros projetos militares. Também existem discussões envolvendo possíveis negócios relacionados ao KC-390 Millennium, aeronave de transporte militar desenvolvida pela Embraer.
Transferência de tecnologia é ponto central
Para o Brasil, um dos principais atrativos do modelo é a possibilidade de aumentar a participação nacional na fabricação dos equipamentos.
A transferência de tecnologia permitiria formar mão de obra especializada, desenvolver fornecedores locais e ampliar a capacidade brasileira de manutenção e atualização dos sistemas ao longo de seu ciclo de vida.
Esse tipo de cooperação também pode contribuir para fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, aumentando a capacidade de empresas nacionais de participar de projetos de maior complexidade tecnológica.
Turquia amplia presença na indústria de defesa
A aproximação com Ancara ocorre em um momento de expansão da indústria de defesa turca no mercado internacional.
Empresas como Otokar, Baykar e Turkish Aerospace desenvolveram produtos que passaram a disputar espaço em diferentes mercados, especialmente nos segmentos de veículos blindados, drones e aeronaves.
A experiência turca em sistemas não tripulados é particularmente relevante. A cooperação com empresas brasileiras poderia combinar essa capacidade com a infraestrutura industrial e aeronáutica já existente no Brasil.
Parceria ainda depende de avanços nas negociações
Apesar da dimensão estratégica da proposta, é importante diferenciar as iniciativas já formalizadas das possibilidades que ainda estão em negociação.
A reportagem indica que a parceria envolvendo Tulpar, Bayraktar e produção industrial é tratada como uma iniciativa estratégica, mas detalhes sobre contratos definitivos, quantidades, valores e cronogramas de fabricação ainda dependem da evolução das tratativas.
Da mesma forma, a eventual produção do E2 em território turco representa uma possibilidade associada à cooperação industrial entre Embraer e Turkish Aerospace, e não uma confirmação de que uma linha de montagem definitiva será instalada.
Brasil busca ampliar autonomia tecnológica
Se concretizada, a parceria poderá representar um dos movimentos mais amplos de cooperação industrial entre Brasil e Turquia no setor de defesa.
A combinação de blindados, drones, aeronaves e transferência tecnológica cria uma agenda que ultrapassa a simples aquisição de equipamentos e pode gerar impactos sobre a indústria, a formação profissional e a capacidade brasileira de desenvolver e sustentar sistemas militares no país.
Para Brasília, a aproximação com Ancara também amplia a diversificação das parcerias internacionais em defesa. Para a Turquia, o Brasil oferece acesso a um mercado de grande dimensão e uma plataforma industrial estratégica para operações na América Latina.
O resultado dependerá agora da transformação das intenções e acordos de cooperação em contratos concretos, com definição de investimentos, tecnologias envolvidas, participação nacional e cronogramas de produção.





























































