A Etiópia defende que a expansão da mobilidade elétrica na África seja acompanhada pelo desenvolvimento de uma cadeia produtiva própria no continente. A proposta foi apresentada pelo ministro dos Transportes e Logística do país, Alemu Sime, durante o Nordic-Africa EV Summit 2026, realizado em Adis Abeba.
Para o ministro, a transição para veículos elétricos não deve transformar os países africanos apenas em consumidores de produtos fabricados no exterior. A estratégia, segundo ele, precisa incluir fabricação, montagem, desenvolvimento tecnológico, pesquisa e formação de profissionais.
Produção local como estratégia industrial
Alemu Sime defendeu uma participação mais ampla dos países africanos em todas as etapas da cadeia de valor da mobilidade elétrica. Entre as prioridades estão o fortalecimento da montagem e da fabricação local, o desenvolvimento de competências em engenharia e software e a criação de estruturas voltadas à pesquisa e inovação.
O ministro também destacou a necessidade de desenvolver sistemas para gerenciamento, reutilização e reciclagem de baterias. A proposta busca fazer com que o crescimento dos veículos elétricos gere novas atividades industriais e oportunidades de emprego no continente.
Na avaliação apresentada pelo governo etíope, a eletrificação do transporte pode funcionar como uma ferramenta de industrialização, desde que os países africanos desenvolvam capacidade própria para produzir, manter e aprimorar as tecnologias utilizadas.
Energia renovável pode impulsionar mobilidade elétrica
A Etiópia possui uma vantagem apontada pelo ministro para acelerar essa transformação: sua capacidade de geração de energia renovável.
A expansão das fontes limpas de eletricidade pode contribuir para diminuir a dependência de combustíveis derivados de petróleo importados, ao mesmo tempo em que favorece a redução das emissões e melhora a qualidade do ar nos centros urbanos.
A eletrificação do transporte também é vista como oportunidade para estimular novos segmentos industriais e criar empregos ligados à chamada economia verde.
A estratégia nacional de mobilidade elétrica da Etiópia para 2025–2030 já estabelece medidas relacionadas à infraestrutura de recarga, eletrificação do transporte público, desenvolvimento do mercado de veículos elétricos e formação de capacidades locais.
Infraestrutura precisa acompanhar expansão dos veículos
Para Alemu, a mudança não pode ser concentrada apenas na substituição dos veículos movidos a combustíveis fósseis por modelos elétricos.
A expansão do setor exige investimentos em estações de recarga, redes de distribuição de energia, plataformas digitais e serviços de manutenção. Também será necessário ampliar a formação de profissionais especializados para atender à nova indústria.
O ministro afirmou que os recursos públicos não serão suficientes para financiar toda essa transformação. Por isso, defendeu uma articulação maior entre governos, bancos comerciais, instituições de financiamento ao desenvolvimento, investidores e empresas privadas.
A utilização de mecanismos de compartilhamento de riscos e investimentos de longo prazo também foi apontada como necessária para criar condições para o crescimento do setor.
Integração regional pode criar mercado africano
Outra proposta apresentada pela Etiópia envolve a padronização das regras utilizadas pelos países africanos.
Alemu Sime defendeu a adoção de normas técnicas comuns, sistemas compatíveis de carregamento, plataformas de pagamento integradas e tecnologias de comunicação que permitam maior interoperabilidade entre os mercados.
A harmonização poderia facilitar a circulação de veículos elétricos entre diferentes países e reduzir obstáculos ao comércio e aos investimentos.
A intenção é evitar a formação de mercados isolados, nos quais fabricantes precisem desenvolver soluções específicas para cada país. Uma estrutura regional integrada poderia, em tese, ampliar a escala de produção e tornar os investimentos mais atrativos.
Diferentes modalidades de transporte
A proposta etíope também considera que a eletrificação deve alcançar diferentes segmentos da mobilidade.
Além dos automóveis particulares, estão incluídos ônibus, sistemas de transporte público, veículos de duas e três rodas, logística urbana e transporte de cargas.
O desenvolvimento dessa cadeia exigirá participação de universidades, centros de pesquisa, instituições de ensino técnico e empresas industriais. A formação profissional aparece, portanto, como um dos pilares para sustentar a expansão da mobilidade elétrica.
Etiópia busca ampliar posição na indústria de veículos elétricos
A iniciativa também se conecta ao processo de transformação do setor automotivo etíope. Durante uma reunião do Conselho Empresarial do BRICS em setembro, o país apresentou a fabricação de veículos elétricos como uma das áreas de interesse para investimentos e cooperação internacional.
A Etiópia já vem adotando medidas para ampliar a eletrificação de sua frota e desenvolver capacidade industrial local. O país lançou sua estratégia nacional de mobilidade elétrica para o período de 2025 a 2030 e estabeleceu objetivos relacionados à produção, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico.
Com a proposta apresentada por Alemu Sime, Adis Abeba pretende ampliar esse debate para uma dimensão continental, defendendo uma cadeia africana capaz de participar não apenas do consumo, mas também da fabricação, tecnologia, infraestrutura e inovação associadas aos veículos elétricos.





























































