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Home Brasil

Gláucia do Arruda: a política como instrumento de transformação

by Fabiana Ceyhan
3 de setembro de 2026
Tempo de leitura:7 min
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Advogada e professora de Direito, com mais de 30 anos de experiência, Gláucia do Arruda construiu uma trajetória marcada pela defesa das famílias, das mulheres e das pessoas com deficiência. Agora, amplia esse compromisso com uma visão de políticas públicas mais humanas, integradas e próximas da realidade.

DO DIREITO À VIDA REAL

Revista Plano B — Quem é Gláucia do Arruda?

Gláucia do Arruda — Sou advogada, professora de Direito e, acima de tudo, uma mulher que escolheu colocar sua trajetória profissional a serviço das pessoas. Ao longo de mais de 30 anos de experiência jurídica, conheci de perto as dificuldades enfrentadas por famílias, mulheres, pessoas com deficiência e famílias neurodivergentes. Muitas vezes, as pessoas conhecem seus direitos, mas não encontram no poder público o suporte necessário para exercê-los.

Minha caminhada na advocacia me ensinou que o Direito precisa sair dos livros e chegar à vida real. Por isso, sempre busquei atuar não apenas na defesa de direitos individuais, mas também na construção de soluções capazes de transformar a realidade de muitas pessoas. Hoje, minha atuação está diretamente ligada à defesa da família, da mulher, das pessoas com deficiência e à busca por políticas públicas que realmente funcionem. Entendo que a política deve ter como propósito servir, ouvir e transformar.

O QUE OS PROCESSOS REVELAM SOBRE AS FAMÍLIAS

Revista Plano B — Ao longo de sua experiência jurídica, quais foram as principais lições sobre as necessidades e os desafios enfrentados pelas famílias brasileiras?

Gláucia do Arruda — A principal lição foi entender que, por trás de cada processo, existe uma história, uma família e, muitas vezes, uma pessoa atravessando um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Aprendi que muitas famílias não precisam apenas de uma decisão judicial. Elas precisam de orientação, acolhimento, acesso à saúde, educação de qualidade, segurança, transporte e oportunidades. Muitas vezes, o problema chega ao Judiciário porque outros caminhos falharam.

Também aprendi que políticas públicas não podem ser construídas apenas a partir de números e estatísticas. É preciso ouvir quem está na ponta, quem enfrenta diariamente filas, falta de atendimento, ausência de medicamentos, transporte precário e falta de profissionais especializados. Justiça não pode ser privilégio de quem tem informação ou recursos. Ela precisa ser acessível a todos.

PROTEGER ANTES QUE A VIOLÊNCIA CHEGUE AO EXTREMO

Revista Plano B — Quais são hoje os principais desafios para garantir
proteção, autonomia e dignidade às mulheres, especialmente às vítimas de
violência doméstica?

Gláucia do Arruda — Um dos maiores desafios é romper o ciclo da violência. A violência doméstica não começa necessariamente com uma agressão física. Pode começar pelo controle, pela humilhação, pelo isolamento e pela violência psicológica e financeira, até chegar a situações extremamente graves.

Precisamos fortalecer a rede de proteção e fazer com que ela funcione de maneira integrada. Não basta termos leis importantes se a mulher não consegue atendimento, apoio psicológico, segurança ou condições financeiras para romper com uma relação abusiva.

A autonomia também é uma forma de proteção. Uma mulher sem independência financeira, moradia ou rede de apoio encontra enormes dificuldades para sair de uma situação de violência. Por isso, defendo políticas públicas que trabalhem prevenção, acolhimento, segurança, capacitação profissional, autonomia econômica e educação. Precisamos proteger a mulher antes que a violência chegue ao extremo.

INCLUSÃO ALÉM DA LEI

Revista Plano B — O que é necessário para que pessoas com deficiência e famílias atípicas tenham mais inclusão e acesso aos serviços públicos?

Gláucia do Arruda — Precisamos transformar a inclusão prevista na legislação em uma inclusão real. Hoje, muitas famílias conhecem seus direitos, mas enfrentam uma verdadeira peregrinação para conseguir aquilo que deveria ser básico: diagnóstico, atendimento especializado, terapias, medicamentos, educação inclusiva, transporte e acompanhamento adequado.

Também precisamos olhar para além da infância. Pessoas com deficiência e neurodivergência crescem, tornam-se adolescentes e adultos e continuam precisando de políticas públicas, oportunidades de trabalho, autonomia, convivência social e qualidade de vida.

Um dos projetos que defendo é a Casa das Famílias Atípicas, um centro de integração com contraturno e equipe multidisciplinar para acolher e proteger tanto as famílias quanto as pessoas que necessitam de atendimento e acompanhamento.

Mas essa construção precisa envolver saúde, educação, assistência social e outras áreas do poder público. E, principalmente, precisa ouvir as próprias famílias. Quem vive essa realidade todos os dias sabe exatamente onde estão os problemas. A política pública precisa deixar de ser feita apenas de cima
para baixo e passar a ser construída também com quem está na ponta.

EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Revista Plano B — Como a educação pode contribuir para formar cidadãos mais conscientes de seus direitos?

Gláucia do Arruda — A educação transforma porque oferece conhecimento, autonomia e capacidade de questionar. Ensinar Direito não deve significar apenas ensinar leis e artigos. É preciso ensinar cidadania.
Quando uma pessoa conhece seus direitos, deixa de ser apenas espectadora e passa a ter condições de reivindicar, fiscalizar e participar. Uma sociedade mais justa começa justamente por pessoas que conhecem seus direitos, respeitam os direitos dos outros e entendem que também possuem um papel na
transformação da realidade.

SERVIÇOS PÚBLICOS MAIS HUMANOS E INTEGRADOS

Revista Plano B — Quais mudanças são mais urgentes para aproximar as políticas públicas da realidade das famílias?

Gláucia do Arruda — A primeira mudança é ouvir mais as pessoas e saber o que realmente funciona e o que não funciona. As políticas públicas precisam ser construídas a partir da realidade de quem utiliza os serviços.
Não podemos aceitar que uma família tenha de enfrentar uma verdadeira maratona para conseguir uma consulta, um diagnóstico, uma vaga em uma escola adequada ou um atendimento especializado.
Também precisamos melhorar a gestão dos recursos públicos, estabelecer metas claras e acompanhar resultados. Não basta anunciar programas ou construir estruturas se o atendimento não chega à ponta. É fundamental ter profissionais capacitados para atender às diferentes demandas da população.
Defendo uma atuação pública mais eficiente, integrada, humana e humanizada. Saúde, educação, assistência social, segurança e transporte não podem funcionar como departamentos isolados. Para uma família, todos esses serviços fazem parte da mesma realidade.

MOBILIDADE É QUALIDADE DE VIDA

Revista Plano B — Como tornar o transporte público mais eficiente e compatível com a realidade dos trabalhadores do DF e do Entorno?

Gláucia do Arruda — Mobilidade urbana é qualidade de vida e beneficia toda a sociedade. Quando o transporte público não funciona, a população perde horas do dia dentro de ônibus e metrôs, chega mais tarde em casa, tem menos tempo com a família e muitas vezes precisa escolher entre pagar uma
passagem e atender outra necessidade básica.

Precisamos pensar a mobilidade de forma integrada, considerando o Distrito Federal e o Entorno. É necessário ampliar e integrar linhas, melhorar a frequência, garantir veículos e estações mais seguros e acessíveis, investir na manutenção da infraestrutura e utilizar tecnologia para melhorar a gestão do
sistema.

Também defendo a ampliação das linhas do metrô para regiões como Santa Maria e Gama e uma conexão mais eficiente com Sobradinho, Planaltina e outras áreas do DF e do Entorno. O transporte público precisa ser eficiente, previsível e economicamente acessível.

UM LEGADO DE CORAGEM PARA TRANSFORMAR

Revista Plano B — Que legado gostaria de construir a partir de sua trajetória?

Gláucia do Arruda — Quero deixar a certeza de que é possível usar conhecimento, experiência e coragem para transformar vidas. Minha trajetória no Direito e na educação me ensinou que conhecimento só faz sentido quando colocado a serviço das pessoas.

Quero contribuir para uma sociedade em que a família seja respeitada, a mulher seja protegida, as pessoas com deficiência tenham seus direitos efetivamente garantidos e os serviços públicos funcionem para quem mais precisa.

Os valores indispensáveis são ética, respeito, responsabilidade e coragem, mas, principalmente, compromisso com as pessoas. Transformar a sociedade exige coragem para enfrentar problemas, humildade para ouvir e responsabilidade para cumprir aquilo que foi prometido. Coragem para liderar. Essa sou eu, Gláucia do Arruda.

ENTRE O DIREITO E A TRANSFORMAÇÃO

A trajetória de Gláucia do Arruda revela uma profissional que transformou a experiência jurídica em instrumento de escuta e defesa de direitos. Para ela, o desafio não está apenas em criar novas leis, mas em fazer com que os direitos já existentes cheguem a quem precisa.

Família, mulheres, pessoas com deficiência, educação, saúde e mobilidade formam o eixo de uma visão que aposta em políticas públicas construídas com quem vive os problemas diariamente.

Mais do que conhecer a lei, Gláucia defende que é preciso conhecer a realidade. E é nesse encontro entre conhecimento, experiência e coragem que ela pretende construir seu próximo capítulo.

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