O encontro entre o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Regional de Cabo Verde, José Luís do Livramento, realizado em Brasília, reforça a centralidade da relação bilateral na estratégia diplomática dos dois países. Mais do que um gesto protocolar, a reunião sinaliza a continuidade de uma parceria construída sobre afinidades históricas, culturais e linguísticas, agora projetada para responder a desafios contemporâneos no Atlântico Sul.
Brasil e Cabo Verde mantêm uma cooperação sólida e de longo prazo, ancorada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e em uma visão convergente sobre multilateralismo, desenvolvimento e segurança regional. A revisão da agenda comum evidenciou a amplitude dessa relação, que abrange desde cooperação técnica e educacional até comércio, investimentos, defesa e coordenação em fóruns internacionais.
A cooperação técnica permanece como um dos eixos mais consistentes da parceria. Desde o final da década de 1990, mais de cem projetos conjuntos foram implementados, com impactos diretos em áreas sensíveis para o desenvolvimento cabo-verdiano, como agricultura, administração pública, segurança alimentar, formação profissional e saúde. Trata-se de uma cooperação orientada para resultados, voltada ao fortalecimento institucional e à capacitação de recursos humanos.
No campo educacional, a presença expressiva de estudantes cabo-verdianos nos Programas de Estudantes-Convênio de Graduação e Pós-Graduação evidencia o papel do Brasil como polo formador no espaço lusófono. Esses programas não apenas contribuem para a qualificação profissional, mas também aprofundam laços sociais e culturais, criando uma base duradoura para a cooperação futura entre os dois países.
A assinatura de um novo Programa Integrado de Cooperação durante o encontro representa um passo adicional nessa trajetória. O foco em áreas como regulação sanitária e propriedade intelectual revela uma atualização da agenda bilateral, alinhada às exigências de um ambiente econômico mais complexo, no qual inovação, segurança jurídica e qualidade regulatória são fatores decisivos para o desenvolvimento e para a atração de investimentos.
O diálogo também ganhou dimensão estratégica regional com os preparativos para a 9ª Reunião Ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), que ocorrerá no Rio de Janeiro. Em um contexto de crescente competição geopolítica e de riscos à segurança marítima, o fortalecimento desse mecanismo reafirma o compromisso de países sul-americanos e africanos com um Atlântico Sul baseado na cooperação, na estabilidade e no desenvolvimento sustentável.
Do ponto de vista econômico, embora a corrente de comércio bilateral ainda seja relativamente modesta, os dados de 2025 indicam espaço para expansão. O intercâmbio de US$ 45,5 milhões, com expressivo superávit brasileiro, aponta oportunidades de diversificação em setores como alimentos, serviços, infraestrutura, energia e economia do mar — áreas em que o Brasil dispõe de capacidade técnica e Cabo Verde apresenta demandas estratégicas.
A reunião em Brasília, portanto, vai além da reafirmação de uma relação tradicionalmente amistosa. Ela projeta Brasil e Cabo Verde como parceiros ativos na construção de uma agenda comum para o Atlântico Sul, combinando cooperação técnica, integração econômica e coordenação política em um cenário internacional cada vez mais desafiador








































































