A possível retomada dos voos da Cabo Verde Airlines para o Brasil reacende uma expectativa antiga — e, ao mesmo tempo, exige cautela. Após quase seis anos fora do mercado brasileiro, a companhia africana volta a aparecer no radar com a obtenção de slots no aeroporto do Recife, um sinal concreto de intenção operacional, mas que ainda não equivale a um retorno definitivo.
Os registros na Anac indicam a previsão de duas frequências semanais entre Recife e Praia, a partir de 6 de maio, utilizando aeronaves Boeing 737. Se confirmada, a operação atenderia a um nicho estratégico: o Nordeste brasileiro, historicamente subatendido em ligações internacionais para a Europa e a África, e com forte potencial turístico e étnico-cultural. Ainda assim, o histórico recente da empresa recomenda prudência antes de comemorações antecipadas.
Não é a primeira vez que a Cabo Verde Airlines anuncia planos de voltar ao Brasil. Desde 2023, declarações públicas e sinalizações institucionais se repetem sem que os voos saiam do papel. A diferença agora está no contexto técnico e regulatório. A recuperação do ETOPS 120, certificação essencial para operações transatlânticas com aeronaves bimotoras, representa um avanço real e necessário. Sem ela, qualquer promessa de retomada seria apenas retórica.
O Recife surge como escolha lógica. Além da localização geográfica favorável, o aeroporto pernambucano tem se consolidado como porta de entrada internacional no Nordeste. Para o passageiro brasileiro, especialmente o nordestino, a rota pode significar uma alternativa mais competitiva para chegar à Europa, sobretudo a Portugal, com conexão em Praia. No passado, a companhia se destacou por tarifas mais acessíveis, o que ajudou a construir sua relevância no mercado.
No entanto, o cenário atual é mais complexo. A concorrência é maior, os custos operacionais aumentaram e o consumidor está mais sensível a fatores como confiabilidade, frequência e integração de conexões. Para que o retorno seja sustentável, a Cabo Verde Airlines precisará ir além do simbolismo do “voltar ao Brasil” e apresentar uma operação estável, previsível e comercialmente atrativa.
Outro ponto que merece atenção é a limitação inicial da malha. Duas frequências semanais oferecem pouca margem para flexibilidade do passageiro e tornam a operação mais vulnerável a ajustes ou cancelamentos. Além disso, o encerramento da programação em outubro, alinhado ao fim da temporada de verão na aviação, reforça a leitura de que se trata, neste momento, de um teste de mercado — não de uma aposta consolidada.
Ainda assim, há méritos claros no movimento. A cooperação recente entre as autoridades de aviação civil do Brasil e de Cabo Verde cria um ambiente institucional mais favorável, e o voo de teste com o 737 MAX demonstra que a empresa voltou a operar com planejamento técnico. O interesse explícito do governo cabo-verdiano em recolocar o país na rota internacional também pesa a favor.
Em síntese, a volta da Cabo Verde Airlines ao Brasil deixou de ser apenas um discurso e entrou, finalmente, no campo das possibilidades reais. Mas o setor já aprendeu que intenção não é operação. Para o mercado e para os passageiros, o momento é de expectativa moderada: acompanhar os próximos passos, aguardar a confirmação oficial da venda de passagens e, sobretudo, avaliar se desta vez o retorno será duradouro — e não apenas mais um ensaio interrompido







































































