As terras raras estão ganhando espaço na estratégia de investimentos do setor mineral brasileiro e podem alterar a direção de parte do capital destinado à mineração nos próximos anos. A combinação entre grandes reservas, aumento da demanda internacional e importância desses elementos para tecnologias avançadas coloca o Brasil diante de uma oportunidade de ampliar sua participação nas cadeias globais de minerais críticos.
O movimento ocorre em um momento de transformação do mercado internacional de mineração. A transição energética, a expansão da indústria de alta tecnologia e a busca dos países por maior segurança no fornecimento de matérias-primas estratégicas têm aumentado o interesse por elementos utilizados em equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, sistemas de energia e aplicações industriais.
Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que o interesse pela pesquisa de terras raras no Brasil cresceu de forma expressiva. Em 2024, foram concedidos 1.370 novos alvarás de autorização de pesquisa relacionados a elementos de terras raras e monazita, um aumento de 291% em relação ao ano anterior. Bahia, Minas Gerais e Goiás concentraram parte significativa dessas autorizações.
Minerais críticos entram no centro da estratégia
O potencial das terras raras está inserido em uma transformação mais ampla da mineração brasileira, com aumento da atenção sobre minerais considerados críticos e estratégicos.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a carteira de investimentos do setor mineral brasileiro para o período de 2026 a 2030 chega a US$ 76,9 bilhões. Desse montante, US$ 21,3 bilhões estão associados a minerais críticos, incluindo cobre, níquel, lítio, grafita, nióbio, zinco e terras raras.
O avanço desses investimentos ocorre em paralelo à criação de mecanismos públicos voltados à expansão da cadeia de minerais estratégicos. A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos estabeleceu incentivos para projetos de pesquisa, processamento e industrialização desses recursos.
Entre as medidas anunciadas estão recursos para financiar projetos e estímulos tributários destinados a aumentar o beneficiamento dos minerais no território brasileiro.
Desafio está além da extração
Apesar do potencial geológico, a expansão do mercado de terras raras depende da criação de uma cadeia produtiva capaz de avançar além da simples extração do minério.
O processamento e a separação dos elementos são etapas consideradas estratégicas porque agregam maior valor ao produto e permitem sua utilização em diferentes segmentos industriais.
Projetos recentes já buscam desenvolver essa capacidade no país. Em setembro, por exemplo, a australiana Viridis Mineração recebeu aprovação de R$ 77,5 milhões do BNDES para implantar um centro de pesquisa e processamento de terras raras em Poços de Caldas, em Minas Gerais. A estrutura deverá produzir carbonato misto de terras raras em escala piloto e desenvolver técnicas metalúrgicas para o processamento de argilas iônicas.
O avanço de iniciativas desse tipo pode contribuir para reduzir a distância entre a disponibilidade de recursos minerais e a produção de materiais de maior valor agregado.
Capital estrangeiro acompanha o mercado
O potencial brasileiro também vem despertando o interesse de grandes grupos internacionais de mineração. Empresas globais avaliam oportunidades no segmento à medida que novos projetos avançam e as cadeias internacionais de fornecimento passam por mudanças.
A reorganização do mercado ocorre em um cenário no qual países e empresas procuram diversificar fornecedores de minerais estratégicos. As terras raras têm importância particular porque são utilizadas em setores associados à eletrificação, defesa, energia e tecnologia.
Nesse contexto, o Brasil possui uma vantagem relacionada à disponibilidade de recursos minerais, mas ainda precisa ampliar infraestrutura, capacidade de processamento, pesquisa tecnológica e previsibilidade regulatória para transformar reservas em projetos de longo prazo.
Financiamento pode acelerar novos projetos
A disponibilidade de capital é outro elemento decisivo para o desenvolvimento da cadeia. Projetos de terras raras exigem investimentos elevados e apresentam ciclos longos entre a pesquisa mineral e o início da produção.
O governo brasileiro anunciou, em setembro de 2026, mecanismos que podem mobilizar bilhões de reais para financiar projetos ligados a minerais críticos e terras raras. O objetivo é estimular investimentos privados e ampliar a capacidade nacional de desenvolver e processar esses recursos.
A combinação entre financiamento, pesquisa mineral, tecnologia e industrialização pode determinar o ritmo de expansão do setor nos próximos anos.
Para o Brasil, o desafio é transformar o potencial geológico em uma cadeia produtiva competitiva, capaz de produzir matérias-primas e também insumos de maior valor agregado. Se esse processo avançar, as terras raras poderão ocupar uma posição cada vez mais relevante na carteira de investimentos da mineração brasileira e na estratégia do país para participar das novas cadeias globais de tecnologia e transição energética.





























































