Um intercâmbio entre mulheres da Guiné-Bissau e integrantes da Comunidade Quilombola Kalunga Engenho II, localizada em Cavalcante (GO), reforçou o papel dos conhecimentos tradicionais como instrumento de cooperação internacional, desenvolvimento sustentável e fortalecimento da segurança alimentar. A iniciativa reuniu agricultoras, pesquisadoras, lideranças comunitárias e representantes de instituições acadêmicas para promover a troca de experiências entre comunidades do Sul Global.
Realizado entre os dias 22 e 26 de junho, o programa “Diálogos e Saberes Ancestrais: Caminhos entre Guiné-Bissau e Brasil” contou com o acompanhamento da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e teve como foco o compartilhamento de práticas relacionadas à agroecologia, conservação ambiental, soberania alimentar, tecnologias socioterritoriais e valorização dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Durante a programação, a delegação africana visitou áreas de cultivo, quintais produtivos e regiões preservadas do Cerrado, onde conheceu técnicas agrícolas utilizadas há décadas pela comunidade Kalunga. Além das visitas de campo, o grupo participou de encontros voltados ao debate sobre organização comunitária, protagonismo feminino, cultura, alimentação e preservação dos territórios tradicionais.
Um dos destaques da programação foi a visita à tradicional Roça de Toco, sistema agrícola baseado no manejo sustentável da vegetação nativa. O modelo prioriza a preservação de árvores e raízes, favorecendo a regeneração natural do ambiente e permitindo o cultivo integrado de diferentes alimentos, como arroz, milho, feijão, mandioca e banana.
As agricultoras da Guiné-Bissau identificaram diversas semelhanças entre as práticas desenvolvidas no Cerrado brasileiro e aquelas adotadas em suas comunidades de origem. Técnicas de cultivo, formas de organização coletiva e métodos de conservação dos recursos naturais demonstraram que, apesar da distância geográfica, os dois povos compartilham experiências construídas ao longo de gerações.
Outro momento marcante ocorreu durante a apresentação dos múltiplos usos do buriti, espécie considerada símbolo do Cerrado. Os participantes conheceram aplicações da planta na alimentação, na produção artesanal, na fabricação de cordas, bebidas e produtos medicinais, sempre associadas ao uso sustentável dos recursos naturais e à preservação das áreas de veredas.
As visitantes africanas relacionaram imediatamente essas práticas ao uso do sibi, planta tradicional de Guiné-Bissau que também desempenha funções econômicas, culturais e ambientais em suas comunidades. A identificação dessas semelhanças evidenciou que diferentes povos desenvolveram estratégias semelhantes de convivência equilibrada com a natureza.
Após conhecerem as experiências brasileiras, as representantes de Guiné-Bissau apresentaram aspectos da cultura e da organização social de suas comunidades. Vestidas com trajes tradicionais de diferentes grupos étnicos do país africano, elas compartilharam conhecimentos sobre produção agrícola, preservação de sementes, trabalho coletivo e fortalecimento da participação das mulheres nas atividades rurais.
Os relatos revelaram pontos em comum entre as duas realidades, como o cultivo consorciado, a produção voltada prioritariamente para o consumo das famílias, o manejo comunitário dos territórios e a valorização da agricultura familiar como instrumento de desenvolvimento local.
Durante os debates, também foram abordados os desafios enfrentados pelas mulheres rurais, incluindo o acesso à educação, às oportunidades de capacitação e ao fortalecimento da liderança feminina nas comunidades. As participantes destacaram que o intercâmbio contribuiu para ampliar a troca de experiências e estimular novas formas de cooperação entre os dois países.
A iniciativa integra o projeto Ecossistema de Tecnologias Socioterritoriais Afro-Brasileiras em Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional, coordenado pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O projeto também faz parte das ações do Mecanismo das Universidades do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (MU-CONSAN-CPLP), fortalecendo a Cooperação Sul-Sul por meio da integração entre universidades, instituições públicas e comunidades tradicionais.
Ao aproximar experiências desenvolvidas no Brasil e em Guiné-Bissau, o intercâmbio demonstra como os conhecimentos ancestrais, a agroecologia e a valorização das práticas comunitárias podem contribuir para a construção de soluções sustentáveis, o fortalecimento da segurança alimentar e o aprofundamento das relações entre países do Sul Global.






































































