
O relato de contatos diretos com venezuelanos em Caracas descreve um momento raro de silêncio e incerteza no país. Sem presença visível de policiais ou militares nas ruas e com a população orientada a permanecer em casa, a capital vive uma calma tensa enquanto o mundo aguarda declarações oficiais do regime chavista e do presidente norte-americano, Donald Trump. O quadro exposto aponta para um ponto de inflexão histórico: não está claro quem exerce, de fato, o poder na Venezuela neste momento.
O ataque ocorrido foi descrito como “cirúrgico”, afastando o temor de uma intervenção terrestre em larga escala — hipótese que poderia resultar em milhares de mortos. A ausência de confrontos imediatos reforça a ideia de que o movimento não foi desenhado para uma ocupação militar clássica, mas sim para provocar uma ruptura política controlada, abrindo espaço para uma reorganização interna do poder.
Nesse contexto, ganha força a suspeita de que tenha havido negociação prévia entre Washington e Nicolás Maduro. O indício mais citado é a mudança abrupta de discurso do líder venezuelano apenas 48 horas antes dos acontecimentos, quando se mostrou disposto a negociar e a abrir a Venezuela à entrada de empresas norte-americanas. Para opositores no exílio e analistas, essa inflexão pública pode ter sido parte de um acordo silencioso para viabilizar a sua saída, preservando determinados interesses estratégicos.
Entretanto, a ideia reforça que a queda de Maduro não significa, automaticamente, a queda do regime. O poder real, segundo o relato, reside numa cúpula político-militar profundamente enraizada, com figuras como Diosdado Cabello e o ministro da Defesa, Padrino López. Trata-se de uma estrutura que vai além de um presidente e que mantém controle sobre tribunais, forças armadas e instituições estatais. Essa complexidade torna improvável uma transição simples ou imediata.
A ausência de manifestações públicas da líder opositora María Corina Machado e de Edmundo González — reconhecido por vários países, incluindo os EUA, como presidente eleito — é interpretada como estratégia de contenção. Qualquer declaração precipitada poderia provocar mobilizações populares descontroladas, com risco de violência. Além disso, há a consciência de que a ação norte-americana, independentemente de seus objetivos políticos, configura uma violação do direito internacional, exigindo cautela discursiva por parte da oposição democrática.
É justamente nesse ponto que se projeta o papel futuro dos Estados Unidos na Venezuela. Mais do que uma mudança de governo, o cenário desenhado sugere uma possível reconfiguração da influência geopolítica no país, com Washington buscando substituir a presença de aliados estratégicos do chavismo por seus próprios interesses econômicos e energéticos. A abertura do setor petrolífero, a entrada de multinacionais norte-americanas e a redefinição das alianças regionais estariam no centro dessa nova fase.
O fator decisivo, contudo, permanece nas mãos dos militares venezuelanos. Se as ordens do alto comando para repressão forem ignoradas, abre-se caminho para o colapso do regime e para uma transição negociada — possivelmente sob forte tutela internacional. Caso contrário, a permanência da cúpula chavista pode limitar a influência direta dos EUA, transformando a atual ação apenas numa substituição de rostos, e não de estruturas.
conclui com uma expectativa contida: tudo dependerá das próximas horas. As declarações de Trump, a reação oficial do regime e, sobretudo, a postura das Forças Armadas definirão se a Venezuela caminha para uma mudança histórica — potencialmente sob nova hegemonia externa — ou se o sistema vigente conseguirá, mais uma vez, absorver o choque e permanecer no poder.







































































