O recente reconhecimento da Somalilândia como Estado independente por parte de Israel provocou forte repercussão no cenário internacional e reações imediatas de importantes atores globais. Nesta sexta-feira (26/12), tanto a União Africana quanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestaram-se contrários à decisão israelense, reforçando a posição majoritária da comunidade internacional em defesa da integridade territorial da Somália.
A posição norte-americana foi expressa de forma direta pelo presidente Trump durante uma entrevista por telefone ao jornal The New York Post. Questionado sobre o reconhecimento da Somalilândia, o líder da Casa Branca foi categórico ao afirmar: “Basta dizer não”. A declaração sinaliza que Washington não pretende acompanhar a iniciativa israelense nem alterar sua política externa em relação ao Chifre da África.
Encontro entre Trump e Netanyahu e foco na Faixa de Gaza
A fala de Trump ocorre em meio à expectativa de um encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, previsto para a próxima segunda-feira (29/12). Segundo Netanyahu, o tema da Somalilândia será levado à reunião, incluindo o interesse do presidente do território autoproclamado, Abdirahman Mohamed Abdullahi, em aderir aos Acordos de Abraão — iniciativa diplomática liderada por Israel e Estados Unidos para normalizar relações entre Israel e países do mundo árabe.
Apesar disso, o presidente norte-americano indicou que não pretende se deixar influenciar pela pauta e afirmou esperar que a conversa com Netanyahu se concentre principalmente na situação da Faixa de Gaza, considerada prioridade na atual agenda de política externa dos Estados Unidos.
União Africana reafirma defesa da integridade territorial
A reação mais contundente veio da União Africana. Em comunicado divulgado na plataforma X, o presidente da Comissão da organização, Mahmoud Ali Youssouf, rejeitou formalmente o reconhecimento da Somalilândia, classificando a separação como uma violação direta dos princípios fundamentais do Ato Constitutivo da entidade.
O documento destaca, em especial, o princípio da inviolabilidade das fronteiras herdadas no momento da independência dos Estados africanos, considerado um dos pilares para a preservação da estabilidade política no continente. Para a União Africana, o reconhecimento unilateral de territórios separatistas representa um risco significativo à ordem regional.
Mahmoud Ali Youssouf alertou ainda que iniciativas desse tipo “correm o risco de criar um precedente perigoso, com implicações de longo alcance para a paz e a estabilidade em todo o continente africano”, em um contexto já marcado por conflitos internos e disputas territoriais em diversas regiões da África.
A questão da Somalilândia no cenário internacional
A Somalilândia proclamou unilateralmente sua independência em 1991, no norte da Somália, após o colapso do regime de Mohamed Siad Barre. Desde então, o território mantém instituições próprias, eleições locais e relativa estabilidade política, mas nunca obteve reconhecimento formal da comunidade internacional como Estado soberano.
A posição predominante entre governos e organizações multilaterais é a de que o único governo legítimo da Somália é o Governo Federal Somali, ainda que sua autoridade prática se restrinja, em grande medida, à capital Mogadíscio e a áreas específicas do país.
Reações regionais e acordo com Israel
O anúncio israelense conferiu, pela primeira vez, reconhecimento oficial à autoproclamada República da Somalilândia, rompendo com o consenso diplomático vigente. A decisão foi acompanhada da assinatura de um acordo bilateral, formalizado por meio de uma declaração conjunta ratificada pelo primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, e pelo líder da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi.
A iniciativa, no entanto, foi prontamente rejeitada por diversos países da região e do Oriente Médio. Governos como os do Egito, Turquia, Somália e Djibuti manifestaram oposição à decisão israelense, argumentando que ela ameaça a estabilidade regional e viola o direito internacional.
Impactos geopolíticos e incertezas futuras
O reconhecimento da Somalilândia por Israel adiciona um novo elemento de tensão às já complexas dinâmicas políticas do Chifre da África e do Oriente Médio. Analistas avaliam que a decisão pode aprofundar divisões diplomáticas, estimular movimentos separatistas em outras regiões do continente africano e dificultar esforços de mediação e reconstrução institucional na Somália.
Diante da rejeição explícita dos Estados Unidos e da União Africana, o reconhecimento israelense tende a permanecer isolado, ao menos no curto prazo. Ainda assim, o episódio evidencia como disputas territoriais históricas continuam a impactar a política internacional, colocando em choque interesses estratégicos, princípios jurídicos e a busca por estabilidade regional.





































































