O Brasil deu um passo importante para tentar colocar sua carne bovina in natura no mercado da Coreia do Sul. Uma delegação técnica sul-coreana iniciou, em 11 de agosto, uma série de visitas a frigoríficos brasileiros para analisar as condições sanitárias e o sistema de fiscalização adotado no país.
A missão permanecerá no Brasil até 20 de agosto e faz parte do processo de avaliação de risco conduzido pelas autoridades de Seul antes de uma eventual autorização para a entrada da carne brasileira. A informação foi confirmada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A inspeção ocorre poucos dias depois do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Lee Jae-myung, realizado em Brasília em 27 de julho. Na ocasião, os governos também decidiram criar um grupo de trabalho destinado a tentar avançar nas negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul.
Processo começou há quase duas décadas
A tentativa brasileira de obter acesso ao mercado sul-coreano para a carne bovina não é recente. As negociações tiveram início em 2008 e avançaram gradualmente por meio de avaliações técnicas e sanitárias.
Em 2023, autoridades da Coreia do Sul já haviam analisado o sistema brasileiro sob a perspectiva da saúde pública. A etapa atual tem outro foco: verificar os procedimentos relacionados à saúde animal.
Um fator que ajudou a destravar a negociação foi a mudança na situação sanitária brasileira. Em 2025, o Brasil conquistou o reconhecimento como país livre de febre aftosa sem vacinação, uma das condições exigidas pelos sul-coreanos para avançar na análise da carne bovina brasileira.
O que os técnicos sul-coreanos estão avaliando
Durante a visita, os representantes da Coreia do Sul devem observar diretamente o funcionamento de unidades brasileiras que processam carne bovina, além de analisar os mecanismos de fiscalização e controle sanitário utilizados pelo governo.
O objetivo é reunir informações para subsidiar a análise de risco realizada pelo país asiático.
A visita aos frigoríficos, contudo, não significa que os estabelecimentos estejam automaticamente autorizados a exportar. Segundo o Ministério da Agricultura, ainda existem etapas técnicas a serem cumpridas antes da liberação comercial.
Depois da conclusão da missão, Brasil e Coreia do Sul deverão negociar o chamado Certificado Sanitário Internacional (CSI). O documento estabelecerá os requisitos necessários para que a carne bovina brasileira possa entrar no mercado sul-coreano.
Somente após essa negociação será definido o procedimento para habilitação dos frigoríficos interessados em realizar as exportações. Até o momento, não existe uma data oficial para o início das vendas brasileiras de carne bovina à Coreia do Sul.
Mercado asiático é considerado estratégico
A possível abertura representa uma oportunidade relevante para a pecuária brasileira. A Coreia do Sul é fortemente dependente das importações de carne bovina: aproximadamente 60% do consumo do país é abastecido por fornecedores estrangeiros.
Em 2025, os sul-coreanos desembolsaram cerca de US$ 6,9 bilhões para comprar aproximadamente 500 mil toneladas de carne bovina no exterior, segundo dados do governo do país. Com esse volume, a Coreia do Sul aparece entre os maiores compradores mundiais da proteína.
O mercado é atualmente dominado por fornecedores como Estados Unidos e Austrália. Os norte-americanos respondem por cerca de 70% das importações sul-coreanas de carne bovina, o que evidencia o tamanho da oportunidade para o Brasil caso consiga superar as exigências sanitárias e comerciais.
Diversificação das exportações
A aproximação com Seul também ocorre em um momento em que o Brasil procura ampliar o número de destinos para suas exportações de carne.
A indústria brasileira enfrenta um cenário internacional mais complexo, marcado por novas barreiras comerciais, restrições e mudanças nas condições de acesso a grandes mercados. A China, principal comprador da carne bovina brasileira, passou a trabalhar com um sistema de cotas e tarifas, enquanto o setor também acompanha possíveis restrições no mercado europeu.
Nesse contexto, Japão, Coreia do Sul e Canadá aparecem entre os mercados considerados prioritários pela indústria brasileira para ampliar as vendas externas. A abertura sul-coreana poderia representar uma alternativa de grande valor justamente por se tratar de um mercado consumidor de alto poder de compra e dependente da proteína importada.
Relação comercial também ganha força
A negociação em torno da carne ocorre dentro de uma agenda econômica mais ampla entre Brasil e Coreia do Sul. O comércio bilateral movimentou aproximadamente US$ 11 bilhões em 2025, enquanto as exportações brasileiras de produtos do agronegócio para o país asiático chegaram perto de US$ 2,5 bilhões no mesmo ano.
Por isso, uma eventual autorização para a carne bovina brasileira poderá ter impacto além do setor frigorífico. A medida tende a fortalecer a relação comercial entre os dois países e ampliar a presença do agronegócio brasileiro no mercado asiático.
Por enquanto, a decisão depende da conclusão das avaliações técnicas e das próximas negociações sanitárias. A missão que está no Brasil representa uma etapa importante, mas ainda não significa a abertura definitiva do mercado. O resultado da análise sul-coreana será determinante para definir os próximos passos.





























































