A missão do Ministério da Agricultura e Pecuária à Europa evidencia como a diplomacia agropecuária brasileira deixou de ser apenas técnica para assumir um papel estratégico na política comercial e geoeconômica do país. Realizada no momento imediatamente posterior à assinatura do acordo União Europeia–Mercosul, a agenda em Bruxelas e Berlim funcionou como um sinal claro de que o Brasil pretende transformar o texto negociado em acesso efetivo a mercados, reduzindo entraves sanitários, regulatórios e burocráticos.
As reuniões com as diretorias da Comissão Europeia mostram que, para além das tarifas, o verdadeiro campo de disputa está nas regras sanitárias e fitossanitárias. Temas como regionalização de enfermidades, certificação eletrônica e habilitação de estabelecimentos são decisivos para que o acordo produza resultados concretos para o agronegócio brasileiro. Nesse sentido, o fortalecimento do Mecanismo de Diálogo SPS Brasil–UE indica uma tentativa de institucionalizar soluções e reduzir o uso político dessas barreiras.
A etapa em Berlim amplia essa leitura. A participação ativa no GFFA e o intenso diálogo bilateral com países centrais e emergentes revelam um Brasil que busca se posicionar como fornecedor global confiável de alimentos, fibras e energia, em um contexto de crescente insegurança alimentar e instabilidade geopolítica. O discurso sobre sustentabilidade, bioeconomia azul e inovação não é apenas retórico: ele responde diretamente às exigências de mercados desenvolvidos e às novas agendas multilaterais.
Ao articular governo, organismos internacionais e grandes empresas do setor, o Brasil reforça sua estratégia de combinar escala produtiva com narrativa ambiental e inclusão social. O desafio, contudo, será converter esse capital diplomático em ganhos duradouros, evitando que o acordo com a União Europeia fique refém de disputas políticas internas ou de novos condicionantes ambientais.
Em síntese, a missão mostra que o agronegócio brasileiro passou a ser tratado como instrumento central de política externa. Em um mundo fragmentado e competitivo, quem define regras, certificações e padrões não apenas vende mais — exerce poder. O Brasil parece ciente disso e começa a agir de forma mais coordenada nesse tabuleiro.







































































