Por Xu Danna
A cerimônia de abertura das comemorações pelos 50 anos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi realizada recentemente em São Paulo. Como uma das principais atividades da programação comemorativa, o Fórum reuniu acadêmicos, escritores e intelectuais públicos da China, do Brasil e de diversos outros países para debater temas relacionados à literatura, cultura, sociedade e ao desenvolvimento do mundo contemporâneo.
Em meio ao aprofundamento dos intercâmbios culturais entre China e Brasil, os círculos literários dos dois países vêm construindo pontes de diálogo entre línguas e culturas por meio da tradução de obras e da troca de ideias. Em abril deste ano, foi lançada em Pequim a edição em chinês de O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil, obra-prima do pensador e escritor brasileiro Darcy Ribeiro. Considerado um dos trabalhos mais importantes para compreender a formação da sociedade e da identidade brasileira, o livro reúne três décadas de reflexão e pesquisa do autor. Em 2024, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva concedeu postumamente a Darcy Ribeiro o título de “Herói Nacional”.
Durante o fórum, o escritor chinês e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Mo Yan, apresentou a palestra “Rios e Literatura”, na qual relacionou suas memórias da Amazônia, do Rio Amarelo e dos rios de sua terra natal com a criação literária. Segundo ele, os rios não são apenas paisagens naturais, mas também carregam memória histórica, emoções culturais e espírito humano. “Os rios são palcos em movimento e símbolos do tempo”, afirmou.
Mo Yan relembrou ainda sua experiência de navegar durante uma semana por um afluente do Rio Amazonas em 2014, realizando um sonho de infância. Segundo ele, a Amazônia lhe causou um profundo impacto e reforçou sua percepção sobre a relação entre rios e literatura. “Grandes rios dão força, confiança e despertam múltiplas sensações artísticas”, declarou. Para o escritor, tanto o Rio Magdalena retratado por Gabriel García Márquez quanto o Rio Amarelo e o Rio Xiang presentes na literatura chinesa ultrapassam a dimensão da paisagem natural e se transformam em espaços simbólicos da criação literária.
Ao abordar os avanços tecnológicos e a inteligência artificial, Mo Yan afirmou que as barreiras linguísticas entre diferentes povos estão sendo gradualmente superadas e que, no futuro, civilizações distintas poderão alcançar formas de comunicação mais profundas e acessíveis. Segundo ele, a tecnologia poderá permitir “uma comunicação presencial praticamente sem obstáculos”.
Durante a sessão de debates, Mo Yan também conversou com acadêmicos brasileiros sobre diversidade linguística, realismo literário e tradição narrativa popular. O escritor destacou que a literatura verdadeiramente viva nasce das experiências locais e da linguagem popular. Para ele, rios, climas, costumes e modos de vida de diferentes regiões moldam identidades literárias singulares.
Mo Yan ressaltou ainda a profunda influência da literatura latino-americana sobre escritores chineses. Segundo ele, durante a juventude leu intensamente autores latino-americanos e encontrou nessas obras pontos de convergência entre diferentes experiências históricas e emocionais da humanidade. Em sua visão, o intercâmbio literário ajuda povos de diferentes países a compreenderem melhor uns aos outros e oferece novas possibilidades para o diálogo entre civilizações.
Os participantes do fórum afirmaram que, diante da globalização e do rápido avanço da inteligência artificial, o intercâmbio literário entre China e Brasil vem ultrapassando a simples tradução de obras, tornando-se um importante elo para a aproximação entre os povos e para o fortalecimento da troca entre civilizações.









































































