Programa liderado pelo governo cazaque, com apoio do WWF e do PNUD, pretende reconstruir uma população de tigres na região de Ili-Balkhash e recuperar um ecossistema que sofreu décadas de degradação
Depois de mais de sete décadas de ausência, o rugido dos tigres voltou a ser ouvido no Cazaquistão. Em setembro de 2024, dois7 tigres-de-amur, Bodhana e Kuma, foram transferidos dos Países Baixos para a Reserva Natural de Ili-Balkhash, dando início a uma das mais ambiciosas iniciativas de reintrodução de grandes felinos na Ásia Central.
A iniciativa é conduzida pelo Governo do Cazaquistão, com apoio do World Wide Fund for Nature (WWF) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O objetivo vai muito além de devolver o maior felino da Ásia a uma região onde já viveu: o projeto busca restaurar toda a cadeia ecológica da área e criar condições para que uma população selvagem de tigres possa voltar a existir no país.
Uma espécie que desapareceu da região
O Cazaquistão fazia parte da área histórica de ocorrência do tigre-do-Cáspio, uma população que habitava regiões da Ásia Central, incluindo áreas próximas aos rios Ili e Syr Darya. A caça, a perda de habitat e a redução das populações de presas contribuíram para o desaparecimento desses animais.
O último tigre do Cazaquistão foi registrado em meados do século XX e a espécie passou a ser considerada extinta no país há mais de 70 anos.
Os animais escolhidos para o programa, entretanto, não são tigres-do-Cáspio. São tigres-de-amur, também conhecidos como tigres-siberianos. A escolha está relacionada à proximidade genética entre o tigre-de-amur e o extinto tigre-do-Cáspio, além da capacidade do tigre-de-amur de suportar invernos rigorosos — uma característica importante para a adaptação ao clima do Cazaquistão.
Bodhana e Kuma: os primeiros protagonistas
Bodhana e Kuma chegaram ao Cazaquistão em setembro de 2024, vindos de um centro especializado em grandes felinos nos Países Baixos. Os dois foram inicialmente colocados em uma área de6 aproximadamente três hectares, especialmente construída para permitir sua adaptação ao novo ambiente.
O casal não foi simplesmente solto na natureza. Como nasceu em cativeiro e não possui as habilidades necessárias para sobreviver sozinho, permanece em uma área controlada. A expectativa é que os animais se reproduzam e que seus descendentes, preparados para viver em ambiente natural, sejam posteriormente libertados.
Esses filhotes poderão representar uma nova geração de tigres selvagens no território cazaque.
Antes dos tigres, foi preciso reconstruir a natureza
A chegada dos felinos é apenas uma etapa de um projeto que começou anos antes.
Para receber os tigres, o Cazaquistão precisou recuperar o ambiente da região de Ili-Balkhash. Foram realizados trabalhos de reflorestamento, recuperação de áreas de vegetação nativa e reintrodução de espécies que servem de alimento para os grandes felinos.
Entre elas está o cervo-de-Bukhara, uma espécie que também havia desaparecido da região. A recuperação das populações de presas é fundamental porque um predador de topo só pode sobreviver em um ecossistema que disponha de alimento suficiente e de uma cadeia ambiental equilibrada.
O projeto, portanto, não consiste simplesmente em “trazer tigres de volta”. Trata-se de reconstruir um habitat capaz de sustentar esses animais a longo prazo.
Um projeto que envolve as comunidades locais
Outro componente considerado essencial é a relação com as comunidades que vivem próximas à reserva.
A região passou décadas sem a presença de tigres, criando uma distância entre a população local e a realidade de conviver novamente com um grande predador. Por isso, o programa inclui iniciativas de aproximação com as comunidades, melhoria de infraestrutura e criação de mecanismos para reduzir possíveis conflitos entre pessoas e animais.
A ideia é fazer com que a conservação da espécie também gere benefícios para quem vive na região.
A meta: uma nova população de tigres
O plano cazaque é de longo prazo. A expectativa é ampliar gradualmente o número de animais e estabelecer uma população selvagem geneticamente saudável na região de Ili-Balkhash.
O WWF aponta como objetivo a formação de uma população de aproximadamente 50 tigres até 2035. Para isso, novos animais poderão ser incorporados ao programa, aumentando a diversidade genética e as possibilidades de reprodução.
O desafio, porém, é enorme. Tigres necessitam de grandes áreas, abundância de presas e proteção permanente contra caça e perda de habitat. Por isso, o sucesso do programa dependerá não apenas da reprodução dos animais, mas da manutenção de todo o ecossistema.
Mais do que o retorno de um animal
A volta dos tigres ao Cazaquistão representa uma mudança de perspectiva na conservação da natureza: em vez de apenas proteger as espécies que ainda existem, o país tenta recuperar uma espécie que desapareceu de seu território e reconstruir o ambiente que permitiu sua existência no passado.
Para o Cazaquistão, o projeto também tem valor simbólico. O retorno do tigre representa a recuperação de parte do patrimônio natural da Ásia Central e coloca o país no centro de uma experiência internacional de restauração da biodiversidade.
Se o programa alcançar seus objetivos, as próximas gerações poderão voltar a encontrar tigres selvagens nas paisagens de Ili-Balkhash — não como uma lembrança do passado, mas como parte novamente integrante da natureza do Cazaquistão.





























































