O encontro tripartite entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, realizado em Abu Dhabi, representa um movimento diplomático raro desde a escalada do conflito em fevereiro de 2022. Embora as conversas tenham sido descritas como “construtivas” por fontes próximas às delegações, a ausência de anúncios concretos ao final de dois dias de negociações evidencia tanto a complexidade do conflito quanto os limites imediatos da diplomacia.
O simples fato de Moscou, Kiev e Washington sentarem à mesma mesa já constitui um sinal político relevante. A escolha dos Emirados Árabes Unidos como sede do diálogo reforça o papel crescente de atores neutros ou não diretamente envolvidos no conflito como mediadores viáveis em disputas de alta sensibilidade geopolítica. Ainda assim, o tom reservado adotado pelas partes indica que os avanços, se existirem, são incrementais e cercados de cautela.
As declarações do presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, apontam para um ponto central das negociações: a discussão de parâmetros gerais para um eventual encerramento das hostilidades e o reconhecimento do papel dos Estados Unidos em mecanismos de monitoramento e supervisão. Esse elemento sugere que Washington busca não apenas influenciar o resultado político, mas também garantir capacidade de fiscalização de qualquer acordo futuro, algo visto por Kiev como essencial para sua segurança.
Do lado russo, a composição da delegação — com forte presença de representantes ligados à área de segurança e inteligência — reforça que Moscou encara as negociações menos como um exercício diplomático clássico e mais como uma extensão do debate estratégico-militar. A exigência russa de reconhecimento territorial e retirada de tropas ucranianas de áreas reivindicadas continua sendo o principal entrave, já que Kiev rejeita qualquer concessão que possa legitimar perdas territoriais.
Nesse contexto, as avaliações “positivas” divulgadas por fontes ucranianas e americanas devem ser interpretadas com prudência. Elas parecem refletir mais a reabertura de canais de diálogo do que uma aproximação real de posições. A possibilidade de uma nova rodada de negociações, já aventada para a próxima semana, indica que Abu Dhabi pode se consolidar como um fórum permanente de conversas exploratórias.
Em síntese, o encontro não produziu uma virada decisiva, mas quebrou a inércia diplomática que marcou grande parte do conflito. O impasse territorial segue como o nó central, e qualquer avanço dependerá menos de declarações otimistas e mais da disposição política das partes em redefinir custos, concessões e garantias de segurança. Por ora, Abu Dhabi simboliza uma janela aberta — estreita, mas relevante — para testar se a guerra pode, ao menos, começar a ser negociada







































































