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Home Diplomacia Política

A Arquitetura da Desigualdade — Como a Boa Vontade da Índia foi Transformada em Concessão Por – Dr. Pradeep Kumar Saxena

by O Mundo Diplomático
7 de maio de 2026
Tempo de leitura:5 min

TRATADO DAS ÁGUAS DO INDO Obrigações assimétricas, concessões desiguais e instrumentalização do Paquistão

Dr. Pradeep Kumar Saxena
Ex-Comissário Indiano para Águas da Índia (2016–2022)

1. Contexto: A Partição de um Sistema Fluvial

O Sistema do Rio Indo compreende seis grandes rios — Indo, Chenab, Jhelum, Ravi, Beas e Sutlej — que atravessam os territórios da Índia e do Paquistão. O sistema sustenta o abastecimento de água potável, a agricultura e a geração de eletricidade em toda a Bacia do Indo, apoiando centenas de milhões de pessoas em ambos os lados da fronteira.

Quando a Índia britânica foi dividida em 1947, o Sistema do Rio Indo também foi repartido entre os dois estados sucessores. A realidade geográfica era evidente: a Índia, como estado ribeirinho a montante, controlava as nascentes da maioria dos rios, enquanto o coração agrícola do Paquistão — as planícies intensamente irrigadas do Punjab — dependia criticamente dos fluxos contínuos de água provenientes do leste.

A Índia, por sua vez, necessitava de acesso ao sistema para atender seus próprios objetivos de desenvolvimento no Punjab e no Rajastão, ao mesmo tempo em que buscava estabilidade e relações normalizadas com seu novo vizinho ocidental.

Apesar de suas urgentes necessidades domésticas, a Índia assinou, em 19 de setembro de 1960, um acordo altamente concessionário de compartilhamento de águas com o Paquistão, tratado este facilitado pelo Banco Mundial.

2. Negociações — A Índia Pagou o Preço pela Racionalidade

2.1 A Estratégia de Atraso do Paquistão e a Proposta do Banco Mundial de 1954

A trajetória das negociações foi moldada, desde o início, pela assimetria entre a abordagem razoável e construtiva da Índia e as exigências maximalistas — por vezes absurdas — apresentadas pelo Paquistão. Essa desigualdade influenciou diretamente os resultados, favorecendo o Paquistão muito além do que uma divisão equitativa justificaria.

A primeira proposta do Banco Mundial, apresentada em 5 de fevereiro de 1954, demonstra claramente essa dinâmica. Mesmo na fase inicial, ela exigia concessões unilaterais significativas da Índia:

  • Todos os desenvolvimentos indianos planejados ao longo do curso superior dos rios Indo e Chenab deveriam ser abandonados, transferindo esses benefícios ao Paquistão;
  • A Índia seria obrigada a renunciar ao desvio de aproximadamente 6 milhões de acres-pés (MAF) do rio Chenab;
  • Nenhuma água do Chenab em Merala (atualmente no Paquistão) estaria disponível para uso indiano;
  • Nenhum desenvolvimento hídrico em Kutch poderia ser realizado a partir do sistema fluvial.

Apesar dessas imposições substanciais, a Índia aceitou a proposta quase imediatamente, em um gesto de boa-fé que demonstrava seu genuíno interesse em alcançar uma solução rápida.

O Paquistão, por outro lado, atrasou sua aceitação formal por quase cinco anos, vindo a fazê-lo apenas em 22 de dezembro de 1958. Como consequência desse gesto conciliador da Índia, as restrições passaram a recair sobre ela própria, enquanto o Paquistão continuou expandindo novos usos nos rios ocidentais sem enfrentar limitações equivalentes.

Segundo a análise apresentada, o Paquistão assimilou a lição de que a obstrução traz recompensas, enquanto a cooperação gera custos — postura que teria sido repetidamente adotada nas décadas seguintes.

3. O Que a Índia Perdeu: A Balança do Sacrifício

3.1 A Alocação de Água

Pela fórmula de alocação estabelecida no Tratado, a Índia recebeu direitos exclusivos sobre os três rios orientais — Sutlej, Beas e Ravi — enquanto o Paquistão recebeu direitos sobre os três rios ocidentais — Indo, Chenab e Jhelum.

À Índia foram concedidos apenas usos limitados e não consuntivos dos rios ocidentais dentro de seu próprio território, principalmente para geração hidrelétrica a fio d’água, sujeitos a extensas restrições operacionais e de engenharia.

Em termos volumétricos:

  • Os rios orientais atribuídos à Índia possuem aproximadamente 33 milhões de acres-pés (MAF) de fluxo anual;
  • Os rios ocidentais atribuídos ao Paquistão possuem aproximadamente 135 MAF.

Na prática, isso significou que o Paquistão recebeu cerca de 80% das águas do sistema, enquanto a Índia ficou com apenas 20%.

O ponto central destacado pelo autor é que a Índia não ganhou novas águas com o acordo. O tratado apenas formalizou o acesso que ela já possuía aos rios orientais, em troca da renúncia a qualquer reivindicação sobre o sistema ocidental muito mais volumoso.

3.2 A Concessão Financeira: Pagando para Entregar Água

Talvez a anomalia mais marcante do Tratado seja sua cláusula financeira.

A Índia concordou em pagar aproximadamente £ 62 milhões — valor equivalente hoje a cerca de US$ 2,5 bilhões — ao Paquistão para financiar a construção de infraestrutura hídrica na Caxemira ocupada pelo Paquistão.

Segundo o texto, trata-se de um precedente singular: o país localizado a montante, além de entregar a maior parte da água do sistema, ainda pagou ao país a jusante pelo “privilégio” de fazê-lo.

Em essência, a Índia teria subsidiado a aceitação paquistanesa de um acordo que já favorecia fortemente o Paquistão na questão central da distribuição das águas.

4. A Injustiça Estrutural do Tratado

4.1 Restrições Assimétricas Unilaterais à Índia

O Tratado impõe uma série de restrições operacionais e técnicas específicas ao uso indiano dos rios ocidentais, sem estabelecer obrigações equivalentes para o Paquistão.

Entre essas limitações estão:

  • Restrição da área irrigada que a Índia pode desenvolver em seu próprio território;
  • Limites rígidos ao volume de água que a Índia pode armazenar em instalações nos rios ocidentais;
  • Obrigação de obedecer critérios específicos de engenharia em projetos hidrelétricos, incluindo limites para reservatórios e capacidade de armazenamento.

Essas restrições são unidirecionais. Elas limitam o desenvolvimento legal de recursos hídricos da Índia dentro de seu próprio território, sem impor ao Paquistão exigências equivalentes de transparência ou contenção.

O resultado, segundo o autor, é um tratado que trata o estado a montante — a Índia — como a parte que necessita de supervisão e restrição, enquanto o estado a jusante recebe fluxos garantidos de água.

Tags: Ásia do SulBanco MundialCaxemiracooperação internacionalcrise hídricadiplomacia internacional.Disputa territorialgeopolítica da águageração hidrelétricaÍndiainfraestrutura hídricairrigação agrícolaPaquistãopartição da ÍndiaPunjabrecursos hídricosRio BeasRio ChenabRio IndoRio JhelumRio RaviRio Sutlejsegurança hídricaSistema do Rio IndoTratado das Águas do Indo
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