Os comandantes das Forças Armadas da Alemanha e do Reino Unido defenderam neste domingo (15/02) um amplo processo de rearmamento da Europa diante do que classificam como mudança estrutural na postura estratégica da Rússia.
Em artigo conjunto publicado nos jornais The Guardian e Die Welt, o general Carsten Breuer, chefe da Bundeswehr, e o marechal do ar Sir Richard Knighton, chefe do Estado-Maior de Defesa britânico, afirmaram que o período pós-Guerra Fria marcado pelos chamados “dividendos da paz” chegou ao fim. Segundo eles, a Europa precisa abandonar a lógica de redução de gastos militares e assumir uma postura de prontidão permanente.
O texto foi divulgado no encerramento da 62ª Conferência de Segurança de Munique, onde líderes políticos e militares debateram a deterioração do ambiente de segurança no continente. Para os dois comandantes, Moscou está se rearmando e se reorganizando de forma a elevar o risco de confronto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
“A Europa precisa confrontar verdades desconfortáveis sobre sua segurança”, escreveram, alertando que sinais de fraqueza ou desunião podem encorajar a expansão da agressão russa.
Durante o encontro em Munique, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, classificou o “imperialismo” russo como ameaça estrutural ao Ocidente, inclusive além das fronteiras da Ucrânia. Ela defendeu o fortalecimento da identidade europeia e a ampliação do bloco como instrumentos estratégicos de contenção.
Os chefes militares ressaltaram que a Otan continua sendo a aliança militar mais bem-sucedida da história, com capacidades terrestres, marítimas, aéreas, cibernéticas e nucleares superiores. No entanto, enfatizaram que superioridade potencial não substitui prontidão operacional e capacidade industrial.
Alemanha acelera transformação militar
A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, provocou uma inflexão profunda na política de defesa alemã. O governo do chanceler Friedrich Merz passou a destinar recursos recordes às Forças Armadas, com mais de 108 bilhões de euros previstos para este ano, combinando orçamento federal e fundos especiais financiados por endividamento.
O ministro da Defesa, Boris Pistorius, já alertou para a possibilidade de a Rússia ter capacidade de atacar território da Otan até 2029. Paralelamente, a Alemanha iniciou encomendas de milhares de drones de combate e firmou cooperação industrial com a Ucrânia para produção conjunta desses equipamentos.
Na última semana, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski recebeu o primeiro drone fabricado na parceria teuto-ucraniana, parte de um plano que prevê até 10 mil unidades por ano.
Eixo Londres-Bruxelas ganha novo impulso
Mesmo uma década após o Brexit, Alemanha e Reino Unido vêm aprofundando a coordenação estratégica em defesa. O artigo destaca a necessidade de financiamento praticamente irrestrito para o setor militar, expansão da produção de munições e fortalecimento da infraestrutura crítica europeia.
Em Munique, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o futuro do Reino Unido e da União Europeia está “mais ligado do que nunca”, sinalizando convergência pragmática em segurança.
O consenso emergente entre líderes políticos e militares é claro: a Europa entrou em uma fase de reconfiguração estratégica, na qual capacidade industrial, coesão política e prontidão militar passam a ser pilares centrais da estabilidade continental.







































































