Após meses de divergências sobre a conveniência de negociar diretamente com Moscou, países europeus passaram a sinalizar maior disposição para participar das conversas diplomáticas destinadas a encerrar a guerra na Ucrânia. A mudança ocorre em meio à preocupação de governos europeus com a condução das tratativas pelos Estados Unidos e com o risco de decisões sobre a segurança do continente serem tomadas sem participação efetiva da Europa.
Um dos movimentos mais recentes ocorreu em 27 de outubro de 2026, quando o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, conversaram por telefone com o presidente russo, Vladimir Putin. O contato teve como objetivo discutir os esforços diplomáticos para retomar as negociações de paz e preparar os próximos encontros previstos para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
Segundo comunicado oficial finlandês, a conversa foi realizada em coordenação com a Ucrânia. Stubb e Støre, contudo, participaram como representantes de seus próprios países, sem mandato para falar em nome de toda a Europa. Após o contato com Putin, os dois líderes também conversaram com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy.
União Europeia tenta ampliar sua participação nas negociações
A Comissão Europeia e o Conselho Europeu preparam uma equipe conjunta de altos funcionários para participar da próxima rodada de negociações, prevista para o início de novembro em Abu Dhabi. A proposta é avançar para um formato multilateral que reúna representantes europeus, ucranianos, norte-americanos e russos.
Até agora, os Estados Unidos vinham ocupando uma posição central nos contatos com Moscou, enquanto a participação europeia permanecia limitada e sujeita a divergências entre os governos do continente.
A iniciativa representa uma tentativa de garantir que os interesses de segurança europeus sejam considerados em qualquer acordo sobre a guerra. A União Europeia também busca assegurar que a Ucrânia tenha participação efetiva nas decisões relacionadas ao seu território, à sua defesa e às futuras garantias de segurança.
Governos europeus continuam divididos sobre o diálogo com Putin
A possibilidade de retomar conversas diretas com o Kremlin divide os países europeus desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
França e Itália estiveram entre os países que defenderam a abertura de canais diplomáticos com Moscou. Áustria, Bélgica, Bulgária, Chéquia, Luxemburgo e Eslováquia também manifestaram apoio à iniciativa.
Em contrapartida, Alemanha, Polônia, Suécia, Dinamarca e países bálticos demonstraram resistência, argumentando que as exigências russas continuavam incompatíveis com uma solução negociada que respeitasse a soberania ucraniana.
A conversa entre Stubb, Støre e Putin provocou novas manifestações de cautela. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, questionou a iniciativa independente dos dois líderes nórdicos, enquanto o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, recomendou prudência nas tratativas com o Kremlin.
As reações mostram que a disposição para dialogar não significa consenso europeu sobre a estratégia a seguir. Permanecem as divergências sobre como negociar sem enfraquecer o apoio à Ucrânia ou legitimar as exigências territoriais russas.
Aproximação entre Washington e Moscou aumenta a preocupação europeia
Outro fator que impulsiona a movimentação diplomática é a preocupação com as decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à Rússia e à Ucrânia.
Segundo a Euronews, autoridades europeias acompanham com apreensão os contatos entre Washington e Moscou, que envolveriam discussões sobre energia, ativos russos e possíveis acordos econômicos. A possibilidade de os Estados Unidos avançarem em negociações sem participação europeia alimenta o receio de que o continente tenha influência reduzida sobre os termos de um eventual acordo de paz.
Nesse contexto, os contatos diretos com Putin são vistos por seus defensores como uma maneira de ampliar os canais de comunicação e permitir que os países europeus apresentem suas próprias posições. A iniciativa, entretanto, não elimina as divergências entre os aliados ocidentais nem garante mudanças na postura russa.
Moscou mantém exigências e não há garantia de acordo
A posição russa continua sendo um dos principais obstáculos para o avanço das negociações. Após a conversa com os líderes nórdicos, o Kremlin reiterou que considera necessário levar em conta os interesses russos e voltou a criticar as políticas da União Europeia e da Otan.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que o contato não trouxe elementos novos para a resolução do conflito. A manifestação indica que a retomada do diálogo, por si só, não representa uma mudança confirmada nas condições defendidas por Moscou.
Do lado ucraniano, Zelenskyy afirmou que os próximos encontros poderão tratar de medidas iniciais de redução das hostilidades, segurança, troca de prisioneiros e possíveis formatos para conversas entre representantes de alto nível. O presidente também reiterou a importância das garantias de segurança para a Ucrânia.
Europa tenta preservar influência sobre o futuro da segurança continental
A maior disposição para negociar diretamente com a Rússia reflete a tentativa europeia de recuperar espaço nas discussões sobre o fim da guerra e o futuro da arquitetura de segurança do continente.
O desafio será conciliar a busca por canais diplomáticos com a manutenção do apoio à Ucrânia e a resistência a condições consideradas inaceitáveis por Kiev e por parte dos governos europeus.
Com uma nova rodada de conversas prevista para novembro, ainda não há garantia de cessar-fogo ou de acordo definitivo. O resultado dependerá das posições apresentadas por Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e países europeus, além da capacidade de transformar os contatos diplomáticos em compromissos concretos.




























































