Entre os dias 5 e 8 de fevereiro de 2026, Adis Abeba tornou-se o epicentro de uma das mais robustas iniciativas recentes da diplomacia econômica brasileira na África. A capital etíope recebeu a maior missão empresarial já organizada pelo Brasil no país, reunindo mais de 70 executivos e autoridades sob a liderança do presidente da ApexBrasil, senador Jorge Viana. O objetivo foi claro: converter alinhamentos políticos em resultados econômicos tangíveis.
A agenda deu sequência ao entendimento firmado em julho de 2025, durante a Cúpula do BRICS, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Abiy Ahmed sinalizaram a intenção de aprofundar a relação bilateral, ampliando fluxos comerciais e promovendo investimentos estratégicos.
Fórum econômico sinaliza inflexão nas relações bilaterais
O momento central da visita foi o Fórum de Cooperação Econômica Etiópia-Brasil, realizado em 6 de fevereiro. O evento reuniu representantes do setor público e privado dos dois países e simbolizou uma transição da retórica diplomática para a institucionalização de parcerias estruturantes.
Autoridades etíopes enfatizaram que o encontro marca o início de uma fase orientada à formalização de acordos, criação de joint ventures e estabelecimento de mecanismos permanentes de coordenação econômica. A celebração dos 75 anos de relações diplomáticas serviu como pano de fundo para projetar uma agenda de longo prazo.
O discurso oficial destacou as complementaridades entre as duas economias, com ênfase no setor agroindustrial. A conexão histórica entre a Etiópia, reconhecida como berço do café, e o Brasil, maior produtor global do grão, foi apontada como exemplo emblemático do potencial de cooperação tecnológica e produtiva.
Instrumentos institucionais para investimentos e agricultura
A missão resultou na assinatura de instrumentos considerados estratégicos para dar previsibilidade à cooperação bilateral. O memorando de entendimento firmado entre a Comissão de Investimentos da Etiópia e a ApexBrasil estabelece bases para promoção coordenada de investimentos, intercâmbio de informações e criação de um grupo de trabalho permanente voltado à facilitação de negócios.
No campo agrícola, os ministérios da Agricultura dos dois países formalizaram acordo de cooperação técnica com foco inicial em desenvolvimento pecuário e transferência de tecnologia. Complementarmente, a Embrapa firmou parceria técnica com o grupo etíope Kerchanshe, voltada à qualificação da cadeia produtiva do café, com ênfase em produtividade, qualidade e agregação de valor.
Novo hub brasileiro amplia presença continental
Um dos anúncios de maior alcance estratégico foi a inauguração, em Adis Abeba, do escritório regional africano da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e da Embrapa. A estrutura deverá coordenar projetos em agricultura, saúde e educação, ampliando a atuação brasileira no continente.
A escolha da capital etíope não é casual: além de sediar a União Africana, o país busca se posicionar como plataforma logística e institucional para investidores estrangeiros interessados na África Oriental e no mercado ampliado da Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).
A ApexBrasil também sinalizou a intenção de criar centros de referência adicionais no continente, consolidando uma estratégia de reaproximação econômica e diplomática com a África.
Agenda técnica e ambiente de negócios
A delegação brasileira manteve reuniões com autoridades etíopes sobre reformas estruturais e oportunidades de investimento, além de visitas técnicas aos parques industriais de Bole Lemi e Kilinto, que evidenciaram a estratégia etíope de fortalecimento do setor manufatureiro.
A programação incluiu ainda visita a uma fazenda de café na região de Hawassa, reforçando o interesse brasileiro em atuar ao longo de toda a cadeia produtiva, da pesquisa ao processamento e exportação.
Ao longo da missão, foram realizados mais de 300 encontros empresariais, consolidando um ambiente de prospecção concreta de negócios.
Cooperação com projeção de longo prazo
Inserida no contexto do BRICS e da AfCFTA, a iniciativa amplia o alcance geoeconômico da relação bilateral. A Etiópia busca se afirmar como porta de entrada para empresas brasileiras interessadas em acessar o mercado africano integrado, enquanto o Brasil reforça sua estratégia de cooperação Sul-Sul baseada em transferência de conhecimento, tecnologia e institucionalidade.
O resultado da visita indica um movimento de densificação das relações econômicas, com instrumentos formais, presença institucional ampliada e engajamento empresarial expressivo. Mais do que um gesto diplomático, a missão sinaliza a construção de uma parceria com ambição estrutural e horizonte de longo prazo








































































