O Seminário “Oportunidades para o Desenvolvimento da Cadeia de Valor da Agricultura Inteligente Vietnã–Brasil 2025”, realizado em Brasília em 16 de dezembro de 2025, consolidou-se como um marco relevante na cooperação bilateral entre os dois países. O evento reuniu representantes governamentais, associações setoriais, empresários, investidores e especialistas, evidenciando o interesse mútuo em aprofundar uma parceria agrícola orientada à inovação, sustentabilidade e geração de valor agregado.
Durante o encontro, o Embaixador do Vietnã no Brasil, Bùi Văn Nghị, destacou que a agricultura ocupa posição estratégica na economia vietnamita e no comércio internacional do país. Em 2025, o Vietnã registrou crescimento econômico expressivo, com expansão do PIB em torno de 8,3% e um comércio exterior que ultrapassou US$ 920 bilhões. As exportações agrícolas, florestais e pesqueiras alcançaram cerca de US$ 70 bilhões, confirmando o país como uma potência global no setor. Produtos como café robusta, arroz e pescado vietnamitas figuram entre os mais competitivos do mundo, atendendo aos mercados mais exigentes.
O diplomata ressaltou que esse desempenho está diretamente associado à transformação digital da agricultura no Vietnã. Tecnologias como Internet das Coisas (IoT), drones, sensores inteligentes, irrigação automatizada, blockchain para rastreabilidade e plataformas de comércio eletrônico agrícola vêm sendo amplamente adotadas. Modelos de agricultura de alta tecnologia implementados no Delta do Mekong e nas Terras Altas Centrais já proporcionam ganhos de produtividade de até 30%, além de significativa redução de custos.
No âmbito bilateral, as relações entre Vietnã e Brasil atingiram um novo patamar nos últimos anos. A elevação do relacionamento ao nível de Parceria Estratégica, formalizada em novembro de 2024, estabeleceu bases sólidas para a cooperação de longo prazo. A adoção de um Plano de Ação para o período 2025–2030 e o reconhecimento do Vietnã como economia de mercado pelo Brasil reforçaram a confiança mútua e abriram novas oportunidades para investimentos e comércio.
O intercâmbio comercial entre os dois países alcançou aproximadamente US$ 8 bilhões em 2025, com a meta de chegar a US$ 15 bilhões até 2030. No setor agrícola, avanços concretos já são observados, como a abertura do mercado brasileiro para o pangasius e a tilápia vietnamitas e, em sentido inverso, o acesso do mercado vietnamita à carne bovina e de aves do Brasil. As exportações de pescado do Vietnã para o Brasil, por exemplo, cresceram mais de 36%.
O seminário evidenciou a complementaridade entre as duas nações. O Brasil se destaca pela produção em larga escala, abundância de recursos naturais e excelência científica, representada por instituições como a Embrapa. O Vietnã, por sua vez, apresenta forte capacidade de organização flexível da produção, processamento industrial, inserção internacional e acesso privilegiado a mercados por meio de uma ampla rede de acordos de livre comércio, além de sua posição estratégica no âmbito da ASEAN.
Nesse contexto, a agricultura inteligente surge como eixo central da cooperação futura. Diante de desafios globais como mudanças climáticas, escassez de recursos e exigências crescentes de sustentabilidade, rastreabilidade e baixa emissão de carbono, a integração de tecnologia e gestão eficiente das cadeias de valor tornou-se imperativa. Vietnã e Brasil compartilham essa visão e vêm priorizando políticas voltadas à inovação no campo.
Entre as áreas com maior potencial de cooperação destacam-se a pesquisa científica e a transferência de tecnologia, incluindo edição genética de culturas, agricultura de precisão com uso de inteligência artificial e satélites, sistemas de IoT e big data para logística e cadeias de frio, blockchain para rastreabilidade e automação de processos agrícolas. A criação de programas de intercâmbio entre pesquisadores e projetos conjuntos entre a Embrapa e instituições vietnamitas foi apontada como caminho estratégico.
Além disso, foi enfatizada a necessidade de avançar além do comércio de commodities, fortalecendo elos das cadeias de valor por meio do processamento profundo, padronização, construção de marcas e maior competitividade global. O estímulo a investimentos bilaterais e à formação de joint ventures pode posicionar o Vietnã como porta de entrada para empresas brasileiras na Ásia-Pacífico e, ao mesmo tempo, ampliar a presença vietnamita no mercado sul-americano.
O papel do setor privado foi amplamente destacado. Empresas dos dois países são vistas como protagonistas na implementação prática da cooperação, sendo incentivadas a adotar uma postura proativa na identificação de oportunidades, no desenvolvimento de projetos sustentáveis de longo prazo e no fortalecimento da integração das cadeias produtivas. Soluções conjuntas de agrotecnologia, como plataformas digitais e sistemas de previsão de mercado baseados em inteligência artificial, também foram mencionadas como exemplos concretos de colaboração.
Ao final, o seminário reafirmou o compromisso do Vietnã e do Brasil em transformar a cooperação agrícola tradicional em uma parceria orientada a cadeias de valor inteligentes e sustentáveis. A combinação do potencial agrícola, da escala produtiva e das capacidades tecnológicas de ambos os países aponta para a construção de modelos de referência internacional, capazes de gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais, além de contribuir de forma significativa para os objetivos globais de desenvolvimento sustentável.








































































