Há uma questão que merece ser discutida na atual campanha eleitoral: por que o debate político brasileiro está tão concentrado em assuntos internacionais, enquanto temas internos e econômicos parecem ocupar um espaço menor?
Esta é uma análise de opinião, baseada na leitura dos acontecimentos recentes. Não se trata de afirmar que o governo não tenha interesse em explorar politicamente a agenda internacional, mas de observar que boa parte dos episódios que colocaram esse tema no centro do debate não foi criada pelo atual presidente.
A campanha poderia estar concentrada em questões como crescimento econômico, emprego, renda, inflação, segurança pública, saúde, educação e qualidade dos serviços públicos. Entretanto, uma sucessão de acontecimentos externos e de movimentos políticos brasileiros acabou levando a eleição para outro terreno.
Um dos elementos dessa mudança foi a atuação de políticos brasileiros nos Estados Unidos em busca de apoio e pressão sobre o Brasil. A realização de eventos com representantes diplomáticos estrangeiros, nos quais foram feitas críticas ao Tribunal Superior Eleitoral e ao sistema eleitoral brasileiro, também contribuiu para internacionalizar uma disputa que, originalmente, deveria ser resolvida dentro das instituições brasileiras.
A partir desse momento, a participação estrangeira deixou de ser apenas uma questão de política externa. Ela passou a fazer parte da própria disputa política nacional.
Depois vieram mudanças na relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, as tarifas impostas pelos americanos aos produtos brasileiros e uma escalada de declarações e medidas que obrigaram o governo brasileiro a reagir.
É preciso fazer uma distinção importante.
Uma coisa é um presidente decidir colocar política externa no centro de sua campanha porque considera esse assunto eleitoralmente conveniente. Outra é um governo ser colocado diante de uma situação internacional que exige uma resposta.
Quando um país estrangeiro impõe tarifas ao Brasil, por exemplo, o presidente não pode simplesmente ignorar o problema. Existe uma responsabilidade institucional de proteger os interesses econômicos brasileiros e buscar uma solução diplomática. Da mesma maneira, quando autoridades ou políticos estrangeiros passam a interferir diretamente em uma disputa política brasileira, o governo precisa decidir como responder.
Nesse sentido, parte significativa da exposição internacional de Lula durante a campanha pode ser compreendida menos como uma escolha inicial de estratégia eleitoral e mais como uma consequência de acontecimentos que foram se acumulando.
O problema é que existe um paradoxo.
Quanto mais o governo reage à agenda internacional, mais espaço ela ocupa na própria campanha.
E isso pode acabar beneficiando justamente aqueles que ajudaram a criar ou ampliar essa agenda.
Se a eleição passa a ser apresentada como uma disputa entre Lula e Trump, ou como um confronto entre Brasil e Estados Unidos, corre-se o risco de deixar em segundo plano a pergunta que deveria estar no centro de qualquer eleição presidencial: como está a vida do brasileiro e qual projeto cada candidato tem para o país?
A economia não pode desaparecer da campanha.
O eleitor precisa saber quais são as propostas para aumentar a renda, controlar a inflação, gerar empregos, melhorar a produtividade, ampliar investimentos e enfrentar os problemas estruturais do país. Também precisa discutir segurança, saúde, educação e infraestrutura.
A política externa pode e deve fazer parte da eleição. Afinal, decisões tomadas no exterior podem afetar diretamente empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros. Mas ela não deveria substituir o debate sobre os problemas cotidianos do país.
Ao mesmo tempo, há uma oportunidade política para o governo.
Se setores da oposição realmente buscaram apoio externo para pressionar instituições brasileiras, Lula pode apresentar sua resposta não apenas como uma disputa ideológica, mas como uma questão de soberania nacional.
A mensagem poderia ser simples: críticas ao governo fazem parte da democracia, mas decisões sobre o futuro do Brasil devem ser tomadas pelos brasileiros.
Essa narrativa pode alcançar um eleitorado mais amplo do que o eleitor tradicional do PT. É perfeitamente possível que alguém seja crítico ao governo Lula e, ainda assim, considere inadequada a tentativa de transformar uma disputa política brasileira em uma questão dependente da intervenção de governos estrangeiros.
Por isso, na minha avaliação, o maior desafio da campanha governista será encontrar o equilíbrio.
Lula não pode simplesmente ignorar a pressão internacional, porque isso poderia ser interpretado como omissão. Mas também não pode permitir que Trump, as relações com os Estados Unidos ou as disputas diplomáticas determinem toda a agenda eleitoral.
A melhor resposta talvez seja justamente recolocar esses dois assuntos lado a lado: defesa da soberania brasileira e discussão dos problemas brasileiros.
Em outras palavras, o governo pode dizer: precisamos defender o Brasil quando houver pressão externa, mas a eleição continua sendo sobre o Brasil.
No fim, essa talvez seja a questão central desta campanha: quem está escolhendo os assuntos que os brasileiros estão discutindo?
Porque, se a agenda eleitoral continuar sendo determinada por acontecimentos internacionais, existe o risco de que os candidatos passem mais tempo discutindo Washington, Buenos Aires e diplomacia do que aquilo que acontece em São Paulo, Recife, Manaus, Porto Alegre ou no interior do país.
E é justamente aí que a campanha deveria voltar a estar: na vida real do eleitor brasileiro.





























































