Brasil e Austrália podem ocupar posições complementares no desenvolvimento de cadeias globais de minerais críticos. A avaliação foi apresentada durante o primeiro fórum binacional dedicado ao tema, realizado em 29 de setembro, em São Paulo, pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com apoio de instituições australianas.
O encontro reuniu especialistas para discutir oportunidades de cooperação entre os dois países em um setor considerado estratégico para a transição energética e para o desenvolvimento de novas tecnologias. A avaliação predominante foi de que Brasil e Austrália não precisam competir diretamente, mas podem combinar competências, recursos naturais e conhecimento para ampliar sua participação nas cadeias internacionais de fornecimento.
Experiências complementares
Natalie Herold, líder de Política e Estratégia da Critical Minerals Association (CMA), destacou que a Austrália pode aproveitar a experiência brasileira na construção de cadeias integradas de valor, citando o setor de nióbio como exemplo.
Na outra direção, empresas e empreendedores brasileiros podem encontrar na Austrália conhecimentos relacionados ao desenvolvimento de projetos minerais, governança, financiamento e conexão com mercados internacionais.
Uma das propostas apresentadas no fórum foi a realização de um mapeamento conjunto dos minerais considerados estratégicos pelos dois países. A ideia é analisar cada recurso individualmente e selecionar aqueles em que existam maiores possibilidades de complementaridade entre projetos, tecnologias e mercados.
Presença australiana no Brasil
Frederico Bedran, diretor executivo da AMC, avaliou que a existência de interesses complementares favorece a aproximação entre os dois países. Segundo ele, três fatores podem contribuir para o avanço dessa cooperação: a presença de empresas australianas no Brasil, o alinhamento diplomático e as possibilidades de intercâmbio tecnológico.
Diversas companhias australianas já atuam no mercado brasileiro, especialmente em projetos relacionados a terras raras. A participação de empresas listadas na bolsa australiana também facilita a conexão com investidores e fontes internacionais de capital.
A Austrália possui ainda uma estratégia própria para ampliar sua participação nas cadeias globais de minerais críticos, buscando atrair investimentos, desenvolver projetos de processamento e estabelecer parcerias internacionais para tornar as cadeias de suprimento mais diversificadas e resilientes.
Processamento é ponto estratégico
Um dos principais desafios apontados durante o encontro está além da própria mineração. Para os especialistas, Brasil e Austrália precisam avançar em etapas como beneficiamento, processamento e refino, permitindo que uma parcela maior do valor econômico dos minerais permaneça nos países produtores.
Natalie Herold ressaltou que o desenvolvimento dessas cadeias depende de fatores como energia competitiva e confiável, infraestrutura adequada, mão de obra qualificada, proximidade dos consumidores e disponibilidade de matéria-prima em escala.
A especialista também apontou diferenças estruturais entre os dois países. Enquanto o Brasil possui um mercado doméstico amplo, a Austrália tem uma população menor e enfrenta desafios relacionados às grandes distâncias territoriais, aos custos de energia e à infraestrutura necessária para apoiar novas indústrias.
Outro ponto de convergência está na indústria química utilizada no processamento mineral. Segundo a avaliação apresentada no fórum, os dois países enfrentam limitações nessa área, criando espaço para cooperação tecnológica e desenvolvimento conjunto de soluções.
Oportunidade para agregar valor
Bruno Gomes, especialista em transição ecológica e fundador da Humana, defendeu que a cooperação deve priorizar o processamento local dos recursos, em vez de concentrar a relação comercial na exportação de minérios brutos.
A estratégia poderia contribuir para ampliar o valor agregado das exportações e, ao mesmo tempo, aproximar a atividade mineral de objetivos relacionados à descarbonização e ao desenvolvimento econômico.
Para os participantes do debate, o fortalecimento da cadeia de minerais críticos também exige maior previsibilidade regulatória e instrumentos capazes de estimular investimentos de longo prazo. Bedran destacou a importância da regulamentação da Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e prevê mecanismos de apoio aos projetos do setor.
A cooperação entre Brasil e Austrália ocorre em um contexto de crescente disputa internacional por minerais utilizados em tecnologias avançadas, eletrificação e transição energética. O desenvolvimento de cadeias mais diversificadas pode reduzir vulnerabilidades de fornecimento e criar oportunidades para que os dois países avancem da exploração mineral para atividades industriais de maior valor agregado.




























































