Um documento elaborado pelo Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, em dezembro de 2025, revelou que o país chegou a estruturar uma estratégia para atrair empresas de alta tecnologia e setores considerados estratégicos por meio de condições especiais no fornecimento de energia elétrica. A iniciativa, entretanto, acabou sendo abandonada após mudanças regulatórias ocorridas ao longo deste ano.
A proposta previa a criação de um regime tarifário diferenciado voltado para indústrias inovadoras, incluindo companhias ligadas à inteligência artificial, tecnologias verdes, economia digital e produção de materiais avançados. O objetivo era aproveitar o excedente de eletricidade disponível no país e transformar essa vantagem em um instrumento para atrair investimentos e gerar empregos.
Entre os principais mecanismos estudados estava a adoção de tarifas fixadas em dólar, oferecendo maior previsibilidade aos investidores internacionais. Os contratos teriam validade de até dez anos e seriam reajustados com base em indicadores de inflação dos Estados Unidos, em vez dos índices econômicos paraguaios.
O projeto também buscava aumentar a competitividade do país utilizando a abundante produção energética proveniente da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores do mundo e responsável por garantir ao Paraguai uma ampla oferta de eletricidade.
Entretanto, a discussão em torno da política energética ganhou novos contornos após um acordo envolvendo a Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) e a empresa britânica Atome, especializada em fertilizantes. A companhia defendia contratos de longo prazo e preços estáveis para a energia, solicitando uma tarifa de US$ 30 por megawatt-hora durante um período de 15 anos.
Em janeiro deste ano, o governo paraguaio chegou a aprovar decretos que estabeleciam benefícios para determinados setores industriais. Contudo, em abril, novas medidas reduziram o alcance dessas vantagens e limitaram a quantidade de energia disponibilizada nos programas especiais.
Posteriormente, em 9 de junho, todos os decretos relacionados ao regime diferenciado foram revogados, encerrando oficialmente a proposta de incentivos.
As condições previstas nos documentos deixavam claro que empresas ligadas à mineração de criptomoedas não seriam contempladas pelo programa. O governo pretendia concentrar os benefícios em setores considerados estratégicos para a transformação tecnológica e energética do país.
Além disso, as companhias participantes seriam submetidas a auditorias e avaliações periódicas para garantir que a eletricidade subsidiada fosse utilizada exclusivamente nas atividades autorizadas. Caso fosse constatado o desvio de finalidade, incluindo o uso para mineração de Bitcoin ou outros ativos digitais, os contratos poderiam ser cancelados imediatamente, acompanhados de penalidades financeiras.
A exclusão das mineradoras de criptomoedas refletia a preocupação das autoridades em direcionar os incentivos para atividades capazes de agregar maior valor à economia e impulsionar setores de inovação e tecnologia.
Outro ponto que gerou debate foi o valor das tarifas previstas nos decretos. Críticos argumentavam que os preços propostos estavam abaixo das condições normalmente praticadas no mercado. Em resposta, o presidente da ANDE, Félix Sosa, argumentou que grandes contratos apresentam perdas significativamente menores no sistema elétrico, o que permitiria a adoção de tarifas mais competitivas.
Embora o plano tenha sido abandonado, os documentos mostram que o Paraguai estudava utilizar sua vantagem energética como instrumento para fortalecer a atração de investimentos internacionais e consolidar sua posição como um potencial polo para indústrias ligadas à inovação e à economia digital.







































































