Em meio ao debate eleitoral e às possíveis mudanças na política externa brasileira a partir de 2027, existe uma realidade econômica que qualquer governo que assuma o Palácio do Planalto terá de considerar: o tamanho da China para a economia brasileira.
Governos mudam. Orientações ideológicas também. Os números do comércio e dos investimentos, entretanto, mostram que determinadas relações econômicas não podem ser simplesmente ignoradas.
Em 2025, o comércio entre Brasil e China alcançou US$ 171 bilhões, o maior valor da série histórica. As exportações brasileiras para o mercado chinês ficaram em aproximadamente US$ 100 bilhões, enquanto as importações provenientes da China atingiram US$ 70,9 bilhões.
O resultado foi um superávit de US$ 29,1 bilhões para o Brasil somente na relação comercial com os chineses. Esse saldo correspondeu a cerca de 43% de todo o superávit comercial brasileiro registrado naquele ano.
A dimensão da relação fica ainda mais evidente quando observamos o destino das mercadorias brasileiras. Em 2025, a China recebeu 28,7% de tudo o que o Brasil exportou. Do outro lado da balança, respondeu por 25,3% das importações brasileiras.
Ou seja: aproximadamente três de cada dez dólares obtidos pelo Brasil com exportações vieram das vendas destinadas ao mercado chinês.
E a influência econômica chinesa não termina no comércio.
Em 2025, os investimentos chineses no Brasil alcançaram US$ 6,1 bilhões, crescimento de 45% em relação ao ano anterior. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o Brasil tornou-se naquele ano o principal destino mundial dos investimentos chineses.
Os recursos estão distribuídos por áreas estratégicas. Energia elétrica continua ocupando posição importante, enquanto mineração, mobilidade elétrica, indústria e novas tecnologias passaram a receber atenção crescente do capital chinês. Somente os investimentos chineses em mineração chegaram a aproximadamente US$ 1,76 bilhão em 2025.
Os dados de 2026 continuam demonstrando a dimensão dessa relação. Segundo informações oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apenas em junho deste ano o Brasil exportou US$ 12,1 bilhões para a China, o equivalente a 34,1% de todas as exportações brasileiras naquele mês.
É justamente diante desses números que política e economia precisam ser analisadas com pragmatismo.
Um eventual governo Flávio Bolsonaro poderá buscar uma aproximação política maior com os Estados Unidos, rever prioridades diplomáticas e estabelecer com Pequim uma relação diferente daquela construída pelo governo Lula. Essa é uma prerrogativa de qualquer governo democraticamente eleito.
Mas existe uma distância considerável entre mudar uma orientação diplomática e colocar em risco uma relação econômica dessa dimensão.
Os Estados Unidos continuam sendo fundamentais para o Brasil, assim como União Europeia, América Latina, países árabes, África e outros mercados asiáticos. Diversificar parceiros é saudável e reduz dependências. Isso, porém, não significa que seja simples substituir a China.
A disputa entre Washington e Pequim deverá continuar influenciando as relações internacionais. O Brasil poderá enfrentar pressões para fazer escolhas, especialmente em áreas como tecnologia, minerais estratégicos, energia, infraestrutura e indústria.
Talvez um dos maiores desafios da próxima política externa brasileira seja justamente não transformar essa disputa em uma escolha obrigatória entre as duas maiores potências.
O Brasil pode fortalecer sua relação com os Estados Unidos sem transformar a China em adversária. Da mesma maneira, pode preservar e ampliar seus interesses comerciais com Pequim sem necessariamente concordar com todas as posições políticas chinesas.
Isso não é alinhamento ideológico. É pragmatismo econômico.
Independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, existe uma realidade que os números deixam bastante clara:
não subestimem o poder da China na economia brasileira.Os números centrais estão amparados por dados do MDIC e pelo levantamento do CEBC: a China respondeu por 28,7% das exportações brasileiras em 2025, o comércio bilateral foi de US$ 171 bilhões e o superávit brasileiro chegou a US$ 29,1 bilhões. Já os US$ 6,1 bilhões de investimentos em 2025 e a liderança brasileira como destino do capital chinês vêm do levantamento mais recente do CEBC.



























































