A ofensiva tarifária do segundo governo Trump contra o Brasil pode ter um efeito reverso e atingir em cheio o próprio mercado norte-americano. Com produtos brasileiros tarifados em até 50%, consumidores dos Estados Unidos também poderão sentir no bolso o impacto sobre itens tropicais que não são produzidos internamente — como café, suco de laranja, celulose, carne bovina e calçados.
O Brasil é o segundo maior parceiro comercial dos EUA, com exportações mistas que incluem produtos agrícolas, industriais e de alto valor agregado. Segundo a economista Patrícia Palermo, os Estados Unidos tiveram superávit comercial com o Brasil em 2022, com mais de US$ 13 bilhões a favor. “Não existe situação fortemente deficitária na relação do Brasil com os Estados Unidos favorável ao Brasil”, aponta.
Entre os principais produtos brasileiros exportados para os EUA estão óleo bruto de petróleo, ferro, café, celulose, carne bovina, suco de laranja, aeronaves e calçados. Muitos desses itens, diz Patrícia, não possuem substituição simples no mercado americano, o que torna a tarifa prejudicial também para os consumidores dos EUA. “Alguns produtos os estadunidenses vão ter até dificuldade de encontrar outros produtores que consigam substituir o Brasil.”
Segundo o internacionalista Maurício Thurow Levien, trata-se de uma jogada política com efeitos geopolíticos incertos. “Os EUA vão acabar pagando mais caro por produtos tropicais que não produzem localmente. É um uso politizado de tarifas comerciais.” Ele lembra que a medida surge em meio à insatisfação com a atuação do Brasil no Brics e com críticas à política externa americana.
Embora o impacto direto sobre a economia brasileira ainda dependa do nível de substituição e da competitividade global, alguns setores sentirão os efeitos com mais força. “A indústria calçadista, por exemplo, encontra nos EUA um mercado muito relevante”, afirma Patrícia. No Rio Grande do Sul, o setor pode ser um dos mais afetados. “Esses produtos vão ficar mais caros a partir do dia 1º, se não houver alteração nessa tarifação.”
Além do impacto em preços, há efeitos indiretos na confiança dos mercados e nas expectativas econômicas. A economista destaca que, logo após o anúncio da carta com as tarifas, o real se desvalorizou frente ao dólar. “Esse tipo de decisão errática e intempestiva do governo americano prejudica o crescimento da economia mundial — e a própria americana.”
Mais coerção, menos liderança: ofensiva enfraquece os EUA
O professor Eduardo Svartman, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), lembra que essa ofensiva tarifária não atinge apenas o Brasil. “Mais 22 países também receberam cartas semelhantes. Desde o início do ano, os Estados Unidos têm acenado com guerras tarifárias em vários países, inclusive aliados como o Reino Unido.” Segundo ele, essa estratégia tem minado a imagem de liderança dos EUA no sistema internacional. “Cada vez que o país age dessa maneira, ele mina o seu papel de líder. Passa a depender mais da coerção e menos da capacidade de liderança.”
Svartman avalia que, a longo prazo, esse tipo de postura beneficia adversários estratégicos dos Estados Unidos. “Esse tipo de ação corrói a liderança que, por muito tempo, os Estados Unidos exerceram no sistema internacional. Isso só beneficia países que já têm um discurso e uma prática de contestação da liderança americana, como a Rússia e a China.”
Enquanto isso, o Brasil busca manter o equilíbrio diplomático, ponderando possíveis retaliações comerciais. “A cautela prevalece”, diz Levien. “Embora a Lei da Reciprocidade permita medidas simétricas, setores como o agro e a indústria seriam os mais atingidos. O Brasil deve buscar uma saída negociada.”