Poucos temas do universo das viagens internacionais geraram tanta confusão recente quanto o ETIAS. Basta abrir as redes sociais para encontrar anúncios alarmistas dizendo que o sistema “já começou”, que “entra em vigor este ano” ou, pior, que “quem não fizer agora não embarca mais para a Europa”. Esse ruído não é acidente: ele nasce da mistura deliberada de conceitos diferentes e da exploração do medo do viajante.
A realidade é bem menos dramática — e, ao mesmo tempo, bem mais séria.
O ETIAS não está em vigor agora. Segundo a própria União Europeia, a previsão oficial é que ele entre em operação apenas no último trimestre de 2026. Até lá, não há formulário ativo, não há taxa a pagar e não há nenhuma exigência adicional para o brasileiro viajar ao Espaço Schengen. Quem diz o contrário está, no mínimo, desinformado — e, no pior dos casos, agindo de má-fé.
Mas minimizar o assunto também é um erro. Quando o ETIAS começar, ele não será opcional. Ele vai se tornar um requisito obrigatório, checado antes mesmo do embarque. E é aí que mora o risco real.
O ETIAS não é um visto tradicional, mas funciona como uma autorização prévia de viagem. O viajante precisará preencher um formulário online, fornecer dados pessoais, informações do passaporte, responder perguntas de segurança e pagar uma taxa. A autorização ficará vinculada ao passaporte — e sem ela, a companhia aérea pode simplesmente impedir o embarque. Não é uma decisão do agente de imigração na Europa; o problema começa no balcão do check-in.
Outro ponto que alimenta a confusão é a ideia de que o ETIAS vale “para a Europa inteira”. Não vale. Ele se aplica aos países do Espaço Schengen, a zona de livre circulação europeia que inclui destinos clássicos como França, Itália, Espanha, Portugal e Alemanha, além de países não pertencentes à União Europeia, como Suíça, Noruega e Islândia. Ao todo, são 29 países. Fora disso, o ETIAS não tem validade.
E é aqui que muita gente tropeça feio: o Reino Unido não faz parte do Schengen. Logo, não participa do ETIAS. Os britânicos criaram seu próprio sistema, o ETA, que já está em vigor e funciona de forma independente. Quem viaja para Londres, Edimburgo ou Belfast precisa do ETA. Quem vai para Paris, Roma ou Lisboa precisará do ETIAS quando ele começar. E quem faz os dois roteiros na mesma viagem pode precisar dos dois documentos. Um não substitui o outro.
Esse detalhe, aparentemente técnico, vai gerar uma enxurrada de problemas quando o ETIAS entrar em funcionamento. Muita gente vai achar que está “com tudo certo”, vai chegar ao aeroporto e descobrir que falta uma autorização. Resultado: voo perdido, dinheiro desperdiçado e uma lição aprendida da pior forma possível.
No fundo, o ETIAS inaugura uma nova fase das viagens internacionais: a era do documento invisível. Não é carimbo no passaporte, não é adesivo colado, não é papel na mão. É um registro eletrônico que, se não existir, simplesmente bloqueia a viagem. E isso exige um novo comportamento do viajante: menos improviso, mais planejamento.
A boa notícia é que ainda há tempo. Muito tempo. O sistema não começou e a própria União Europeia afirma que divulgará a data exata com antecedência. A má notícia é que, quando começar, não haverá período de adaptação para quem ignora informação oficial e prefere acreditar em manchetes alarmistas.
No fim das contas, o ETIAS não é um vilão nem um caos iminente. Ele é apenas mais uma camada de controle em um mundo que cruza dados antes de abrir fronteiras. Quem entende isso com antecedência viaja tranquilo. Quem cai no “terrorismo turístico” das redes sociais corre o risco de transformar férias em frustração.
Informação correta, nesse caso, não é luxo. É parte da bagagem.







































































