A presença recente de aeronaves russas em Brasília reacendeu um debate que o governo brasileiro ainda não resolveu de forma satisfatória: o da transparência em temas sensíveis da política externa. Não se trata apenas de voos diplomáticos ou logísticos, algo comum entre Estados soberanos, mas do contexto em que essas operações ocorrem — marcado por sanções internacionais, guerra na Europa e crescente disputa de influência na América Latina.
O pouso de aviões ligados diretamente ao Kremlin e às Forças Aeroespaciais Russas não chamou atenção apenas pela origem, mas pelo padrão. Rotas longas, cuidadosamente desenhadas para contornar o espaço aéreo europeu, escalas estratégicas na África e uma concentração incomum de voos em curto espaço de tempo levantam questionamentos legítimos. Quando há excesso de sigilo, a lacuna informativa passa a ser preenchida por especulação — e isso raramente joga a favor do governo.
A explicação oficial de que os voos estariam relacionados à preparação de uma visita do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, resolve apenas parte do problema. Mishustin é alvo de sanções internacionais, e sua recepção em território brasileiro ocorre em um momento de forte pressão dos Estados Unidos para conter a expansão da influência russa e chinesa no continente. Ignorar esse pano de fundo é, no mínimo, ingenuidade diplomática.
O desconforto aumenta quando se lembra que, meses atrás, um cargueiro russo igualmente sensível pousou em Brasília e seguiu para Venezuela e Cuba sem que o governo apresentasse explicações detalhadas até hoje. A repetição do padrão — voos militares, empresas sancionadas, ausência de comunicação clara — transforma o episódio atual em algo maior: um problema de credibilidade institucional.
É importante destacar que o Brasil tem o direito soberano de manter relações com quem considerar estratégico. A política externa brasileira historicamente se pauta pela autonomia e pelo diálogo com múltiplos polos de poder. O problema não está na relação com a Rússia, mas na forma como ela é conduzida e comunicada. Em tempos de alta tensão internacional, neutralidade não pode ser confundida com opacidade.
Além disso, Brasília não é uma cidade qualquer. É o centro político do país, sede dos Três Poderes e símbolo do Estado brasileiro. Movimentações atípicas envolvendo aeronaves militares estrangeiras, especialmente de países em conflito ativo, exigem explicações proporcionais à sensibilidade do tema. O silêncio, nesse caso, não protege a soberania — fragiliza.
Ao optar por não detalhar objetivos, cargas, acordos ou agendas associadas a essas visitas, o governo abre espaço para desconfiança interna e ruídos externos. Parceiros internacionais observam. A opinião pública questiona. E a diplomacia brasileira, conhecida por seu profissionalismo histórico, acaba colocada sob suspeita desnecessária.
Se o Brasil pretende seguir como ator relevante no cenário global, precisará entender que, no mundo atual, transparência é também uma ferramenta de poder. Explicar não é ceder. Informar não é se submeter. Pelo contrário: clareza fortalece a posição do país, reduz tensões e demonstra que decisões estratégicas não estão sendo tomadas à sombra.
Os aviões russos podem até ter justificativas legítimas. O problema é que, sem explicações claras, o que pousa em Brasília não são apenas aeronaves — são dúvidas







































































