A visita de trabalho do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ao Equador encerra mais do que um giro diplomático pela região. Ela sinaliza uma mudança importante na forma como o Brasil vem reconstruindo sua presença na América do Sul: menos retórica, mais pragmatismo; menos gestos simbólicos, mais entregas concretas.
O encontro com a chanceler equatoriana Gabriela Sommerfeld dá continuidade a uma agenda iniciada ainda em agosto, durante a visita do presidente Daniel Noboa a Brasília. O fato de os temas centrais permanecerem os mesmos — acesso ao mercado brasileiro, cooperação em segurança pública e combate ao crime organizado transnacional — revela consistência, algo cada vez mais raro na diplomacia regional.
A ampliação do acesso de produtos equatorianos ao mercado brasileiro não deve ser lida apenas como concessão comercial. Trata-se de uma estratégia de integração econômica que fortalece cadeias produtivas regionais e reduz a dependência de mercados extrarregionais. Em um cenário global marcado por barreiras, tarifas e instabilidade geopolítica, aproximar economias vizinhas é uma decisão racional.
Nesse contexto, a atualização e ampliação do Acordo de Complementação Econômica entre o Mercosul e o Equador ganha relevância estratégica. O ACE-59, hoje limitado em escopo, pode se transformar em uma ferramenta mais robusta de integração, capaz de gerar ganhos mútuos e maior previsibilidade comercial. Para o Brasil, isso significa ampliar sua influência econômica regional sem recorrer a mecanismos de imposição; para o Equador, significa acesso a um mercado-chave e maior inserção sul-americana.
Outro ponto central da conversa foi a cooperação em segurança pública. O crime organizado transnacional deixou de ser um problema isolado de Estados específicos e passou a operar como rede regional. Rotas de tráfico, lavagem de dinheiro e organizações criminosas atravessam fronteiras com facilidade muito maior do que os instrumentos estatais tradicionais. Ao tratar esse tema como prioridade diplomática, Brasil e Equador reconhecem que segurança não é apenas questão policial, mas também política e institucional.
A diplomacia brasileira, nesse movimento, retoma um papel histórico: o de articuladora regional. Em vez de protagonismo ideológico ou afastamento estratégico, o país aposta em coordenação, diálogo técnico e construção de consensos. É uma postura que não gera manchetes explosivas, mas tende a produzir efeitos duradouros.
O simbolismo do encerramento do périplo justamente no Equador também é relevante. O país vive desafios internos profundos relacionados à violência e à instabilidade institucional. Ao manter o diálogo ativo e focado em cooperação concreta, o Brasil envia um sinal claro de compromisso com a estabilidade regional — não por ingerência, mas por parceria.
Em um momento em que a América do Sul enfrenta fragmentação política e desconfiança mútua, iniciativas como essa mostram que a integração ainda é possível quando guiada por interesses objetivos. A visita de Mauro Vieira não promete soluções milagrosas, mas reafirma algo essencial: diplomacia eficiente é aquela que constrói pontes antes que crises as tornem necessárias.
Se mantida essa linha, o Brasil pode voltar a exercer influência regional não pelo tamanho de sua economia ou pelo peso de sua história, mas pela capacidade de articular soluções em um ambiente cada vez mais complexo. E, na política externa, isso costuma valer mais do que discursos grandiosos






































































