A decisão de Donald Trump de autorizar a reabertura do espaço aéreo comercial da Venezuela, poucas semanas após a captura de Nicolás Maduro, não é um gesto isolado nem meramente humanitário. Trata-se de um movimento político calculado, que revela a forma como o presidente norte-americano enxerga diplomacia: pressão máxima seguida de controle narrativo.
Ao anunciar pessoalmente que conversou com Delcy Rodríguez e que determinou a retomada imediata dos voos, Trump deixou claro que pretende conduzir a relação com a Venezuela de maneira direta, centralizada e personalizada. Mais do que sinalizar normalização, o discurso transmite a ideia de que a estabilidade do país vizinho passou a depender da chancela de Washington. Não por acaso, o presidente norte-americano fez questão de afirmar que americanos poderão visitar a Venezuela “com segurança”, como se a certificação internacional do país estivesse agora sob responsabilidade exclusiva dos Estados Unidos.
O contraste com a postura adotada meses antes é evidente. Em novembro, o fechamento do espaço aéreo foi acompanhado de alertas duros, ameaças explícitas e a sinalização clara de operações militares. Esse fechamento funcionou como instrumento de pressão estratégica, preparando o terreno para a intervenção que culminou na prisão de Maduro. A reabertura, portanto, não representa reconciliação, mas sim a transição para uma nova fase de controle político.
Ao elogiar publicamente os “líderes da Venezuela” e agradecer pelo “bom trabalho”, Trump constrói uma narrativa de cooperação que esconde a assimetria real da relação. O gesto simbólico serve para legitimar a nova configuração de poder em Caracas, ao mesmo tempo em que reforça a imagem de um presidente capaz de “resolver crises” com decisões rápidas — um ativo importante para sua política interna.
No plano internacional, a medida também envia um recado claro: sanções, bloqueios e restrições não são instrumentos permanentes, mas alavancas temporárias. Trump mostra que pode fechar e abrir rotas estratégicas conforme seus interesses políticos e de segurança, sem necessidade de longos processos multilaterais ou consensos regionais. Isso reforça uma lógica unilateral que preocupa aliados e organismos internacionais.
Para a América Latina, a reabertura do espaço aéreo venezuelano inaugura um período de incerteza. Se, por um lado, reduz riscos imediatos de escalada militar, por outro consolida a ideia de que mudanças políticas profundas podem ser conduzidas de fora para dentro, com pouca participação regional. O precedente é perigoso: estabilidade obtida por imposição tende a ser frágil.
No fim, a decisão de Trump não fala apenas sobre a Venezuela, mas sobre o modelo de governança global que ele tenta impor. Um modelo em que sanções substituem diplomacia, anúncios substituem acordos e a previsibilidade cede espaço ao improviso estratégico. A reabertura do espaço aéreo, longe de ser apenas uma boa notícia para a aviação comercial, é mais um capítulo de uma política externa baseada na força, no timing político e no controle da narrativa.
Resta saber se essa estabilidade declarada resistirá quando os holofotes se afastarem — ou se será apenas mais uma pausa tática em um cenário ainda longe de se resolver.






































































