As declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, deixam pouco espaço para ambiguidades: para a Rússia, qualquer acordo de longo prazo sobre a Ucrânia passa necessariamente pelo reconhecimento oficial da Crimeia e do Donbass como territórios russos. Ao afirmar que até mesmo os Estados Unidos compreendem essa premissa, Moscou sinaliza que considera a questão territorial como eixo estruturante — e inegociável — de um eventual desfecho diplomático do conflito.
O discurso de Peskov revela dois movimentos simultâneos. De um lado, a leitura de que Washington está “correndo contra o tempo”, pressionado por custos políticos, estratégicos e econômicos crescentes. De outro, a tentativa russa de enquadrar as negociações em um formato já previamente definido, com base na chamada “fórmula de Anchorage”, elaborada durante a cúpula russo-americana de agosto no Alasca. Segundo o Kremlin, é essa arquitetura que deve orientar as conversas atuais, sob pena de não haver qualquer avanço sustentável.
Ao destacar a figura de Donald Trump como um negociador “experiente” e pragmático, que atua segundo a lógica dos negócios e dos interesses nacionais, Peskov sugere que Moscou enxerga no atual protagonismo americano uma oportunidade — ainda que limitada — de alcançar um acordo funcional. Em contraste, a liderança europeia é retratada como fraca e irrelevante, incapaz de resistir à pressão de Washington ou de desempenhar papel autônomo nas negociações. A exclusão explícita de figuras como a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, reforça a percepção de que Rússia e EUA preferem tratar o conflito de forma bilateral, relegando a Europa a um papel secundário.
As negociações realizadas em Abu Dhabi, encerradas no sábado, confirmam esse desenho. Embora descritas como técnicas e focadas em segurança, elas indicam que o plano americano — segundo vazamentos à imprensa internacional — vai muito além de um simples cessar-fogo. A proposta envolveria concessões profundas por parte da Ucrânia: transferência do controle do Donbass à Rússia, reconhecimento formal da Crimeia, congelamento de linhas de contato em Zaporozhie e Kherson, redução significativa das Forças Armadas ucranianas e restrições severas à presença militar estrangeira no país.
Esse conjunto de medidas evidencia o tamanho do impasse. Para Kiev, aceitar tais termos significaria uma derrota estratégica e política de grandes proporções. Para Moscou, no entanto, trata-se do mínimo necessário para garantir segurança, previsibilidade e um acordo duradouro. Ao insistir que sem a solução territorial “não há esperança” de paz de longo prazo, o Kremlin deixa claro que vê qualquer alternativa como provisória ou ilusória.
O cenário que se desenha é o de uma negociação assimétrica, conduzida sob forte pressão do tempo e dos fatos consumados no terreno. Se haverá espaço para ajustes ou concessões mútuas ainda é incerto. O que já parece claro, contudo, é que a Rússia não está disposta a flexibilizar sua posição central — e que os Estados Unidos, ao menos segundo Moscou, reconhecem essa realidade








































































